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Julio Mesquita
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  3-D: uma velha artimanha para acabar com a pirataria

Filmes em terceira dimensão não podem ser copiados da tela sem a desfocalização natural do processo

Sérgio Augusto

As outras fracassaram. E o jeito foi apelar para a terceira dimensão. Se vai dar certo, são outros quinhentos - como se dizia no tempo em que os filmes em 3-D viraram moda. Steven Spielberg acha que sim. Peter Jackson, o diretor de O Senhor dos Anéis, concorda. James Cameron também. E boa parte da indústria cinematográfica, sufocada não só pelo comércio bucaneiro de filmes mas também pela avassaladora expansão do lazer doméstico (internet, videojogos), diz amém.

Simples: como filmes em 3-D não podem ser copiados da tela sem a desfocalização natural do processo, como pirateá-los? Embora já exista um televisor da Samsung (HLT-5678) que promete imagens em terceira dimensão, em princípio, filmes em 3-D e DVD são incompatíveis. Videojogos, tudo bem; até têm servido de cobaias para o formato em sua reencarnação digital.

Complexo: como a indústria de filmes poderá sobreviver sem a comercialização de DVDs legítimos, responsáveis, em muitos casos, por 80% da renda final de uma produção? E quem garante que nunca aparecerá um Dr. Silvana da informática, para inventar uma maneira de transcodificar filmes em 3-D para discos digitais de vídeo e perpetuar a farra dos corsários do entretenimento eletrônico?

Noves fora o combate à pirataria, outro objetivo ressuscita a terceira dimensão: atrair mais fregueses aos cinemas com sua peculiar espetaculosidade. Hollywood permanece fiel à panacéia das novidades tecnológicas. Foi assim com o lançamento do filme sonoro, do filme colorido, e todas as extravagâncias contemporâneas do 3-D cinqüentão, como o CinemaScope, o Cinerama, o som estereofônico, os épicos bíblicos, etc, todas, sem exceção, incitadas pela concorrência da televisão.

Mudou o vilão, mas ele continua onde sempre esteve. Para tirar o pessoal de casa, da comodidade da TV, das distrações eletrônicas e da mordomia dos home theaters, só mesmo algo muito especial, único e estonteante. Conseguirá ser isso tudo o novo cinema em 3-D?

O anterior não conseguiu. Ou só cumpriu o que dele se esperava por um período bem curto. Entre 1952 e 1955, Hollywood lançou 45 produções em 3-D. Assim distribuídas: uma (a 'pioneira' Bwana, o Demônio) em 1952; 27 em 1953; 16 em 1954; e apenas uma em 1955. Na temporada seguinte? Zero.

Explicação mais plausível para o fiasco: as produções rodadas em 3-D eram muito ruins, quase sempre filmecos de horror e ficção científica, sem qualquer interesse além das vertigens óticas proporcionadas pelo processo anaglífico.

(Definição sucinta: o anáglifo é uma figura que combina duas imagens obtidas de pontos de visão diferentes e impressas em cores contrastantes - vermelho e verde -, e que, olhada através de óculos com lentes dessas cores, produz a ilusão de profundidade, de relevo, de tridimensionalidade, enfim.)

Junto com o ingresso, a gente recebia um par de óculos de papelão, com lentes (vermelho e verde) de celofane, obrigatoriamente devolvidos na saída. Sem eles, as imagens na tela, projetadas por dois projetores, pareciam um imenso borrão. Com eles, a sensação de que os objetos e atores atirados em direção às câmeras (eram duas durante as filmagens, captando as mesmas imagens com alguns centímetros de diferença) vinham para cima da platéia. Daí o acúmulo de tumultos, brigas, pedras rolando, ataques de animais ferozes, cavalos empinando e dançarinas de saloon balançando as pernas em primeiro plano. E a qualidade da narrativa que se danasse.

Só três filmes artisticamente ambiciosos foram rodados em 3-D, no início dos anos 50: Disque M Para Matar, de Hitchcock; o musical Dá-me um Beijo (Kiss me Kate), de George Sidney; e, bem abaixo destes, o western Caminhos Ásperos (Hondo), de John Farrow. Mas 99% dos espectadores do mundo inteiro não os viram na versão tridimensional.

Hitchcock não guardou gratas lembranças da experiência: 'Foi uma moda que durou nove dias - e eu, infelizmente, só cheguei no nono dia.' Mais frustrado ficou Andre de Toth, diretor de Museu de Cera (House of Wax, 1953), o filme mais popular da safra. Zarolho, não pôde curtir nada. Por que lhe entregaram a direção de um filme em 3-D nunca foi esclarecido.

Bwana, o Demônio (Bwana Devil), de Arch Oboler, estreou em 26 de novembro de 1952, prometendo duas bonificações: 'Um leão em seu colo!' e 'Uma garota em seus braços!' Bisonha aventura africana, estrelada por Robert Stack, rendeu, como os outros, mais aborrecimentos do que uma boa reputação. Os atores eram obrigados a mover-se devagar diante das câmeras, evitando aproximar-se muito delas para evitar distorções ou incômodas surpresas, como, por exemplo, a impressão de que um dos seios da atriz estava desabando sobre as três primeiras filas do cinema.

Por ser novidade, causou sensação nos primeiros meses. Era o cinema voltando à sua primitiva fase mafuá. Sem o menor escrúpulo no que diz respeito à apelação. Até mentir valeu. Para todos os efeitos, o 3-D teria nascido em 1952, quando, na verdade, nascera em 1915, com três curtas dirigidos por Edwin S. Porter (que 12 anos antes fizera o primeiro western, O Grande Roubo do Trem) e W.E. Waddell, artífices do primeiro processo anaglífico. Em 1922, Nat Daverich dirigira o primeiro longa em 3-D, Power of Love, e W.Neill, o segundo: Mars (ou Radio Mania), sobre um inventor que entrava em contato com Marte via TV. Em 1936, o italiano Sante Bonaldo confeccionou o primeiro 3-D sonoro: Nozze Vagabonde. O primeiro em cores, Robinson Crusoe, dirigido na URSS por Alexander Andreyevsky, em 1947, foi feito pelo processo Stereokino, prodígio de S.P. Ivanov, que dispensava o uso de óculos anaglíficos.

Concretamente, o cinema em 3-D ficou morto durante quase 30 anos. Quando, em 1982, Steve Miner rodou nesse formato a terceira parte de Sexta-feira, 13, quase não havia mais salas equipadas com a aparelhagem adequada para exibi-la. Dos 37 mil cinemas existentes atualmente nos EUA, somente 2.300 dispõem de projeção digital, e, destes, apenas 700 estão em condições de projetar filmes em 3-D. E pensar que, antes mesmo da estréia de Bwana, o Demônio, já havia por lá 5 mil cinemas em condições de 'pôr um leão no colo da platéia'.

No Brasil, que eu saiba, o Cinemark do Shopping Eldorado, em São Paulo, é uma exceção que tende a deixar de sê-lo se o futuro do cinema for, de fato, tridimensional, como profetizam Spielberg, Jackson, Cameron e o resto da confraria blockbuster.

'Não é pra já', ressalva o produtor Jon Landau, 'mas, fora do digital e do 3-D, não há salvação'.

Não é pra já porque a maioria dos exibidores ainda considera proibitivo o preço de um projetor digital (US$ 100 mil), assim como o custo dos componentes exigidos pela projeção tridimensional, o que inclui um revestimento de prata na tela, que não sai por menos de US$ 20 mil. Outro receio: o preço dos ingressos. Pelo menos 20% mais caros eles deverão custar.

'O ressarcimento será quase imediato', promete Michael V. Lewis, que tanto entende do riscado quanto é suspeito de promover o 3-D digital em benefício próprio. Lewis é o chefão da Real-D, que detém o monopólio da parafernália tridimensional.

A ressurreição da tridimensionalidade foi um efeito colateral do IMAX (Image Maximum), criação da canadense IMAX Corporation, que oferece o máximo de resolução numa tela de 22 m de comprimento por 16.1 m de altura. E, também, de um acúmulo de outros avanços tecnológicos. Há quatro anos, James Cameron dirigiu o documentário Ghosts of the Abyss, em IMAX 3-D. Em seu rastro, vieram alguns longas de animação - O Galinho Chicken Little, A Casa do Monstro, A Família do Futuro - bem mais fáceis de produzir, por motivos óbvios.

Custa uma fortuna produzir um 3-D digital com atores de verdade. A qualidade é incomparavelmente superior ao que de melhor nos podia oferecer o processo anaglífico de antanho. Vi duas demonstrações, numa cabine da NHK, em Tóquio, alguns anos atrás - uma delas com a nossa Dora Bria windsurfando numa praia do Pacífico - e fiquei impressionado com a nitidez quase absoluta das imagens e a desnecessidade de óculos especiais.

O último Festival de Cannes ofereceu uma amostra do 3-D digital: um concerto para 60 mil fãs da banda irlandesa U2, cujo título (U2 3D) também ficaria bem num robô de Guerra nas Estrelas. Registrado por uma dúzia de câmeras de última geração, monitoradas pela dupla Catherine Owens-Mark Pellington, resultou num show virtual, que só não encheu as medidas daqueles que, como eu, não fazem a menor questão de ter o rosto de Bono (ainda mais com aqueles óculos) coladinho aos seus.

Enquanto Bono se exibia em três dimensões na Croisette, James Cameron tocava adiante Avatar, ambiciosa odisséia bélica entre terráqueos e extraterrestres, cujo orçamento já deve ter ultrapassado o de Titanic, justamente por ser um dos primeiros longas de ficção em 3-D digital inteiramente rodados com atores de carne e osso. Programado para estrear só daqui a dois anos, dessa vez você terá em seu colo (ou em seus braços) Sigourney Weaver, um inegável upgrade.

O primeiro na fila de estréias é uma adaptação do poema épico anglo-saxão Beowulf, com Ray Winstone, Crispin Glover, Angelina Jolie e Anthony Hopkins no elenco, Robert Zemeckis na direção e uma equipe de 200 técnicos de efeitos especiais. Mal entrara em pós-produção, e a Warner já soltava foguetes. Que encontraram eco na Dream Works Animation SKG, que promete produzir apenas filmes em 3-D digital a partir de 2009.

'É a maior experiência cinematográfica desde o advento da cor', blasonou Jeffrey Katzenberg, o K da SKG. Já estava promovendo, antecipadamente, a primeira das três aventuras de Tintin, o globetrotter belga dos quadrinhos, que Spielberg (o S da SKG) pretende produzir, de parceria com Peter Jackson e sua empresa de efeitos especiais, a Weta Digital. O primeiro da série será dirigido por Spielberg e o segundo por Jackson. O diretor do terceiro ainda não foi escolhido. Os quadrinhos quase sempre saem perdendo quando seus personagens trocam o desenho animado pela personificação desanimada. Conseguirá o 3-D digital superar essa histórica incompatibilidade?

   


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