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  Praça da Sé ganha livraria

Unesp inaugura hoje loja. Sem best-sellers

Humberto Maia Junior, SÃO PAULO

O cliente chega à livraria e pede um livro de Dostoiévski. O vendedor faz cara de quem não tem a menor idéia do assunto, vai correndo para o computador tentar localizar a obra e sofre para digitar o nome do escritor russo corretamente. E a expressão de indecisão do funcionário, se a pergunta é por um autor de estilo parecido com o do americano Ernest Hemingway? São situações como essas que o editor executivo Jévio Gutierre quer evitar na Livraria Unesp, que abre suas portas ao público hoje na Praça da Sé. O objetivo é resgatar um hábito antigo, mas que se perdeu na grandiosidade das megastores: tratar o livro como algo além de uma simples mercadoria com valor econômico.

Para isso, fez um processo de seleção na contratação de funcionários em que pesou muito o gosto pela leitura, conhecimento do assunto e a vontade por aprender mais. Os funcionários contratados também vão fazer cursos de aprimoramento.

A gerente Maria Antônia Pavan de Santa Cruz está sempre relendo Guimarães Rosa e Machado de Assis. Já a atendente Jocimara Rodrigues de Souza prefere os livros de filosofia e história da política.

“Se o atendente não for freqüentador de livrarias e não tem empatia pelos livros, não vai saber o que incomoda os clientes”, diz Gutierre. Por isso, por mais que o funcionário entenda do assunto, ele não vai ficar empurrando autores nem discorrer teses sobre determinada escola literária. “Eles vão ser apenas uma espécie de ‘assessor’ do comprador, não vão adotar postura invasiva.”

CONVERSA

Jocimara, aluna de Ciências Sociais da PUC, conta que viu o anúncio da vaga do emprego no mural da universidade e logo pensou em se candidatar. Leitora de Monteiro Lobato na infância, Mary Shelley na adolescência e livros acadêmicos desde que entrou na faculdade, ela diz que adora conversar sobre livros.

“Imagino o cliente perguntando sobre um livro e falando sobre um assunto que eu não conheça. Em cinco minutos de conversa posso aprender bastante”, afirma a estudante, que diz estar já ganhando novos conhecimentos no trabalho de catalogação das obras.

Gutierre espera criar um laço com o cliente que quase não existe mais. “Assim como existia o ‘médico da família’ havia o livreiro de confiança”, diz. “Não podemos subestimar o valor dos bons livreiros. Foi com eles que entrei em contato com obras que, sozinho, nunca leria.”

A livraria também investiu no ambiente físico. O tom nostálgico é dado pelo candelabro. O resto é moderno: paredes brancas, estantes com estrutura metálica azul e prateleiras de madeira.

Também haverá um café, mesas e pufes para os clientes manusearem os livros com tranqüilidade. “Na compra, nada substitui o manuseio. Nem os descontos das livrarias virtuais”, diz Gutierre.

   


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