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'Brasil é imperialista desde descobrimento'
Entrevista
Alberto Müller Rojas, general da reserva e ideólogo da ‘revolução bolivariana’
Para ‘guru’ ideológico de Chávez, Congresso brasileiro insultou a Venezuela ao criticar cassação da RCTV
Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA
Não adianta argumentar com o general de divisão da reserva Alberto Müller Rojas. Venezuelano, de 72 anos, ele foi o professor de Geopolítica de Hugo Chávez, quando o atual presidente era cadete da Academia Militar. Tornou-se ideólogo da “revolução bolivariana”, chefe da campanha eleitoral de 1998 e coordenador da comissão que cuida da criação da legenda chavista, o Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV). “O comércio entre Brasil e Venezuela foi de mais de US$ 2 bilhões no ano passado, com déficit de US$ 900 milhões para nós. O Brasil nem sequer compra petróleo da Venezuela. Isso se deve às tradições imperialistas do Brasil, que existem desde antes do descobrimento, quando a Coroa Portuguesa assinou o Tratado de Tordesilhas (firmado entre Portugal e Espanha em 1494, que dividiu entre as duas potências da época as terras que seriam descobertas no Novo Mundo)”, atacou. “Há forças conservadoras no Congresso que querem que o Brasil execute um choque imperial na América do Sul.” No início da semana passada, o general aposentado envolveu-se em uma pesada rusga com seu ex-pupilo, que o destituira do cargo de Chefe do Estado-Maior da Presidência. Pela imprensa, Müller Rojas puxara as orelhas de Chávez por não admitir que a profissionalização das Forças Armadas é um gasto inútil, pois “somente o povo em armas” seria capaz de confrontar-se com as potências nucleares. Em um discurso, logo após sua chegada do Irã, Chávez pediu a retratação do mestre. “Assim como ele não tem de se retificar ao Senado brasileiro, eu tampouco vou me retificar.” O general assegura que não diverge em nada de Chávez e apóia em 100% a sua política. Para ele, seu comandante “não tem culpa” de controlar hoje o Congresso e a Corte Suprema da Venezuela e não ferirá a democracia com reeleição ilimitada e seu novo partido. “Eternamente socialista”, o militar acredita que Chávez segue o mesmo rumo. “Se não, ele me enganou”, afirmou ao Estado, por telefone.
O sr. mantém sua recente crítica ao presidente Chávez, por ter-se oposto à profissionalização das Forças Armadas?
Eu disse que todas as Forças Armadas do mundo respondem a bandeiras políticas. A guerra é um instrumento político em todo o mundo. O Exército americano, em suas ações no Iraque, responde às bandeiras dos neoconservadores. As críticas a essa minha observação foram transformadas em críticas ao presidente Chávez, que me repreendeu num discurso. Essa atitude foi injusta porque eu defendo suas políticas exterior, de defesa, social e econômica. Essa suposta polêmica deve-se a intrigas palacianas, a politicagem. O presidente Chávez disse que eu deveria me retificar. Assim como ele não tem de se retificar com o Senado brasileiro, eu tampouco vou me retificar.
Por que o sr. se opõe à profissionalização das Forças Armadas?
Um país pode ter uma Força altamente profissional para atuar de maneira dissuasiva e ser mobilizada para uma guerra convencional. Mas nenhum Exército profissionalizado é capaz de enfrentar potências nucleares que dominam a tecnologia de informação. Só a resistência do povo em armas tem esse poder. A Guarda Republicana do Iraque era profissionalizada e foi destruída em 20 dias. Na Venezuela, que importa todo seu armamento, a profissionalização é um gasto inútil.
Como o sr. avalia os gastos da Venezuela com armamentos?
Cobrem só 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Somos o sexto país da América do Sul em gastos militares. Em primeiro, obviamente, está o Brasil. A corrida armamentista sobre a qual fala o governo dos EUA, e tem eco nas forças conservadoras brasileiras, colombianas e peruanas, é pura propaganda. A Venezuela é uma zona de paz. Nunca fomos expansionistas, nunca tivemos imigrantes com o propósito de conquistar espaços, nunca tomamos um metro de território de um vizinho. Nunca tivemos bandeirantes. Perdemos quase a metade do nosso território por causa de invasões de outros países sul-americanos.
Os EUA são uma ameaça à Venezuela?
À Venezuela, não. À humanidade. Os EUA intervieram na política venezuelana e transformaram a Colômbia em seu protetorado. Promoveram o golpe de 2002 e fizeram manobras com submarinos e porta-aviões na costa venezuelana. Isso é agressão em qualquer parte do mundo.
É normal ter militar venezuelano na atividade político-partidária?
É normal e transparente. Os militares, em todas as partes do mundo, têm posições políticas. Incluindo os brasileiros. No Brasil, os militares da ativa são proibidos de exercer ações político-partidárias pelo regimento. Eles têm seu próprio partido. Não há nenhum partido militar no Brasil. Há apenas militares da reserva ou licenciados em atividade partidária. E quem tomou o governo (João) Goulart? Não foram as Forças Armadas? Foi um golpe de Estado. Se, amanhã, a política do governo do Brasil não coincidir com a dos militares, os militares vão interferir como um partido. Os militares fazem pressões políticas, de acordo com seus interesses, e atuam como partido. Nos EUA, os militares atuam a serviço das forças neoconservadoras. Pode ser assim na Venezuela. Os conflitos sociais são sempre resolvidos pelos militares desde as primeiras civilizações. Em pleno século 21, os governantes têm de agir com transparência, sem valer-se de metáforas e enganos.
O presidente Chávez atua com transparência, sem metáforas e enganos?
Chávez demonstra o que não é. Ele diz que não está estimulando a conduta política do Exército. Mas está, sim. Eu me nego a participar de enganos.
O sr. falou com o presidente Chávez sobre essa sua advertência?
Ele não teve a delicadeza de me ouvir, antes de me repreender em público.
Mesmo sendo tão próximo a ele? O sr. era reconhecido como o ideólogo da revolução bolivariana.
Era e sou. Eu não estou me distanciando da política do presidente. Eu só reclamo de um deslize do presidente Chávez. A RCTV argumenta que sua concessão venceria somente em 2022.
O governo Chávez tomou a medida acertada ao cassar a concessão?
A concessão venceu no momento em que foi suspensa. A RCTV estava acirrando a violência política interna. Outros canais fazem a mesma coisa, mas suas concessões não venceram ainda. O Executivo agiu de acordo com a legislação venezuelana, em um ato de total transparência. Muito mais que o fechamento de cinco emissoras pelo governo do Peru.
O sr. se diz socialista. Chávez também é socialista?
Creio que sim. Se não, ele me enganou. Fui o chefe de sua campanha eleitoral em 1998, e coincidimos sobre a posição socialista de seu governo. Desde 1999, o presidente adotou medidas políticas polêmicas. Primeiro, convocou a Constituinte, que lhe deu o mecanismo do referendo popular e lhe permitiu a reeleição. Depois, por um erro das oposições, Chávez passou a controlar 100% do Congresso. Também fez nomeações que lhe garantiram o apoio total da Corte Suprema e propôs a Lei Habilitante, que lhe deu amplos poderes. Ele fez como os presidentes George Bush e Ronald Reagan, que nomearam republicanos conservadores para a Corte Suprema e controlaram o Congresso americano. No Brasil, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem maioria no Congresso e é obrigado a negociar com seus opositores. Na Venezuela, como a oposição não apresentou candidatos, o Parlamento é controlado pelos aliados do presidente. Chávez não tem culpa. Na democracia, quando não há interlocutores, o governo atua sozinho. A Lei Habilitante é um instrumento de 1810.
O sr. é favorável à reeleição sem limites, que consta na reforma constitucional apresentada por Chávez?
O poder não é exercido por funcionários burocráticos. O presidente Chávez é um funcionário público que, um dia, morrerá. Agora, o poder está nas mãos das classes populares. Não mais nas da burguesia e da aristocracia
Mas não deixará, como semente, o partido chavista? O objetivo de Chávez é perpetuar sua linha política?
Claro. Esse é o objetivo de todo político.
A renovação no poder não é benéfica para a democracia?
Na maior parte da Europa, a reeleição é ilimitada. Em outros, há limitações para a reeleição de presidentes, mas não de parlamentares, o que é um embuste. O poder está nas mãos do Congresso, que controla o dinheiro, a capacidade de convocação. Não nas mãos do presidente da república.
O presidente Chávez realmente quer o ingresso da Venezuela ao Mercosul? Seu governo não parece disposto a negociar a liberalização comercial com o Brasil e a Argentina.
Nós estamos dispostos a negociar todas as liberações possíveis. O comércio Brasil-Venezuela é assombroso e bem irregular. O comércio entre os países foi de mais de US$ 2 bilhões, com déficit de US$ 900 milhões para nós. O Brasil nem sequer compra petróleo da Venezuela. Isso se deve às tradições imperialistas do Brasil, que existem desde que a Coroa Portuguesa o descobriu.
Por que imperialista?
O País quase forçou o presidente Lula a romper com a Bolívia porque, soberanamente, Evo Morales decidiu nacionalizar seus hidrocarbonetos. Quando construiu a Rodovia Transamazônica, o governo militar brasileiro tinha objetivos ofensivos. Há forças conservadoras no Congresso que querem que o Brasil execute um choque imperial na América do Sul.
O sr. concorda, então, com o ultimato de Chávez ao Congresso brasileiro, para que aprove o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul até setembro?
Queremos um tratamento de igual para igual, que ainda não tivemos. Por que o governo brasileiro demorou um ano para enviar o protocolo ao Congresso?
Não demorou um ano. O protocolo foi assinado em julho de 2006 e enviado em fevereiro passado ao Congresso.
O que o Brasil quer (aos gritos)? O que mais quer, depois de exportar US$ 2 bilhões para a Venezuela no ano passado?
Dada a crise de abastecimento de alimentos na Venezuela, as importações de bens brasileiros vêm a calhar, o sr. não concorda?
Podemos comprar alimentos de qualquer parte do mundo, até mesmo de nossos vizinhos andinos (aos gritos). Se os Congressos do Brasil e do Paraguai não ratificarem o protocolo até setembro, o presidente Chávez vai retirar adesão ao Mercosul. O Congresso brasileiro atacou a Venezuela, ao criticar ações soberanas do Estado venezuelano. Atuou como um papagaio dos EUA, como disse o presidente Chávez. Por que teve de se meter? Isso foi um insulto e uma ingerência que apenas um império é capaz de fazer.
Se o governo venezuelano avalia que o Brasil é um império, desde a época dos bandeirantes, e o Congresso é um papagaio de Washington, por que quer se aproximar do Brasil?
Porque convém aos povos do Brasil e da Venezuela, aos sem-terra do Brasil. Às elites brasileiras e venezuelanas, conservadoras, essa aproximação não convém. No Brasil, o Poder Legislativo não é controlado pelo presidente Lula, mas pelas forças conservadoras que têm dinheiro e se solidarizaram com a RCTV.
Quem é:
Alberto Müller Rojas
Foi professor de Geopolítica de Chávez na Academia Militar
Coordenou a campanha para a primeira eleição de Chávez, em 1998, e coordenou a criação do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), que deve reunir todos os grupos de apoio ao governo
Discordou do plano de Chávez de profissionalizar as Forças Armadas
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