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Quinta-feira, 31 maio de 2007   edições anteriores
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  No avião, Zuleido lê auto-ajuda

Após ser solto, ele ouve desaforo em viagem e sinaliza que não pretende delatar ninguém

Expedito Filho, BRASÍLIA

Uma parada providencial no banheiro do aeroporto, a trombada de um urubu contra o avião, um passageiro com espírito de paparazzi, uma frase inconveniente. Foi assim a primeira viagem do empresário Zuleido Veras, dono da Gautama, após deixar a carceragem da Polícia Federal, onde ficou duas semanas. Num vôo de Brasília para Salvador, 14 horas após ser solto por ordem do Supremo Tribunal Federal, na madrugada, Zuleido pôde sentir na pele a repercussão do caso e o peso de ter sido apontado pela ministra Eliana Calmon como o 'chefe dos chefes' da máfia desbaratada pela Operação Navalha. Como estratégia de sobrevivência, ele optou pelo silêncio - na prisão, no vôo e no futuro imediato.

No aeroporto de Brasília, Zuleido era alvo de comentários por onde passava. Para fugir do burburinho, chegou a se trancar no banheiro por instantes. Um passageiro seguiu todos os seus movimentos, fotografando com o celular. Reparou que Zuleido foi um dos últimos a entrar no vôo 1204 da Gol, que deixou Brasília pouco antes das 14h. Na sala de embarque, Zuleido tinha se mantido discreto. Procurou distanciar-se o máximo possível dos outros passageiros do mesmo vôo.

Para não ser reconhecido, com seu rosto que lembra o ator Charles Bronson, entrou no avião de cabeça baixa. Sentou-se na poltrona 8A, segurando um livro de auto-ajuda. Perigo - Como sobreviver a situações limite, lia-se na capa. No avião, um dos passageiros disse em voz alta que o empreiteiro da Gautama merecia uma surra. O convite tácito não foi aceito pelos demais.

Nas conversas que manteve na viagem com amigos e assessores, Zuleido deixou claro que não vai delatar ou acusar autoridade ou político que tenha participado de seus negócios. 'De jeito nenhum', garantiu. No vôo e em terra, o empreiteiro preferiu não dar entrevista sem consultar os advogados. 'Não vou falar agora', ponderou ao Estado.

Informalmente, porém, Zuleido tem enviado sinais de que não se rendeu, apesar de a operação policial ter levantado inclusive evidências documentais contra ele. No momento, ele está preocupado em reerguer a Gautama, mesmo sem ter a dimensão exata do balanço de perdas e danos. De uma coisa, diz a amigos estar convencido: nunca mais será o mesmo.

O empreiteiro ainda não sabe o que o lhe reserva a Justiça. Daí porque se agarra à orientação jurídica como um náufrago ao salva-vidas. Nem de longe lembra o homem autoconfiante flagrado em horas de grampos telefônicos. Aquele pressionava autoridades, negociava propinas, exalava intimidade com o poder. O passageiro do vôo da Gol de ontem tinha olhar perdido e ar de abatido.

Em conversas informais, o novo Zuleido envia pedidos de desculpas a sua rede 'de amigos', grampeada e flagrada pela PF. Ele não sabia, por exemplo, da escuta autorizada do publicitário Guilherme Sodré, ex-marido da mulher do governador da Bahia, Jacques Wagner, a quem emprestou uma lancha para o governador passear com a ministra Dilma Rousseff.

Para Zuleido, agora é hora de se refugiar no ambiente familiar. Ali, espera fazer um reconhecimento de terreno para ter visão mais precisa de suas chances de sobrevivência. No meio da confusão, alguém ainda o aconselhou a não repetir os erros do ex-deputado Ricardo Fiúza e do ex-presidente da Caixa Econômica Federal Lafaiete Coutinho. Flagrados em escândalos, eles tiveram grande dificuldade de aceitar o momento seguinte - para alguns, é difícil viver com a constatação de que já não se tem a força do passado.

No final do vôo 1204, quando o avião já aterrissava em Salvador, um susto: um urubu chocou-se contra o reverso da turbina, causando grande impacto. Parecia lembrar a má sorte do empreiteiro mais famoso a bordo. Ao deixar o avião, Zuleido recebeu da aeromoça a amostra grátis de um creme dental. Soou como ironia: a pasta era da marca Sorriso.

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