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Julio Mesquita
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Sábado, 3 fevereiro de 2007   edições anteriores
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  Na redação da lendária Diners

No 10.º aniversário da morte de Paulo Francis, uma memória sobre a fascinante revista que ele dirigiu

Ruy Castro

Os dez anos da morte de Paulo Francis, que se completam amanhã, passaram muito depressa. Principalmente quando seus amigos mais antigos recordam certas peripécias da convivência com ele e constatam, atônitos, que alguns desses episódios parecem ter acontecido há uma eternidade - quarenta anos. Um deles, e dos mais bonitos na trajetória de Francis, foi sua curta, mas brilhante temporada como editor da revista Diners, no Rio, em 1968 - uma publicação, tanto hoje como na época, maciçamente desconhecida do público, mas, então, muito admirada no meio e o sonho de inúmeros jornalistas cariocas, que adorariam colaborar nela. Não era apenas a revista intelectualmente mais sofisticada da imprensa brasileira e herdeira direta da respeitada Senhor (1958-1964). Era também a que pagava melhor - e no ato.

Sim, foi há quarenta anos, porque a participação de Francis na revista começou, na verdade, em meados de 1967. Diners já existia desde 1962, como uma publicação mensal dirigida como brinde aos associados do Diners Club, o cartão de crédito administrado no Brasil por Horacio Klabin. Não chegava sequer a ser uma 'revista society', tipo Sombra ou Rio Magazine. Era quase um house-organ e, como tal, bem sem graça - sua receita consistia de uma saraivada de anúncios do varejo classe A, uma vasta seção de serviço, indicando hotéis, boates, restaurantes, butiques, lojas de carros importados etc, que estimulassem o uso do cartão, e um ou outro artigo ou ficção traduzido de uma publicação análoga do Diners Internacional. Como praticamente não continha material jornalístico, não precisava de um jornalista para dirigi-la - tanto que o encarregado de botá-la de pé a cada mês era o gerente Jayr Rosa de Miranda. Mas Jayr, em busca de alguém para traduzir o material estrangeiro e ajudá-lo a montar a revista, contratou em fins de 1966 o repórter José Carlos Monteiro, 22 anos.

Monteiro, ao perceber que Horacio Klabin tinha um especial carinho pela revista, tentou incrementar sua receita editorial comprando artigos de jornalistas seus amigos, do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil - Sérgio Augusto, Christina Autran, Paulo Perdigão, Geraldo Mayrink, Nilcéa Nogueira. A revista melhorou e atraiu a atenção de Beki Klabin, ex-mulher de Horacio e ainda sua sócia na empresa.

Naqueles primeiros meses de 1967, a mordaz e expedita Beki estava particularmente entediada. A função de grã-fina era pouco para suas aspirações pessoais - Beki queria estrelar sua própria vida, e não como um satélite do ex-marido. Precavendo-se contra possíveis chuvas e trovoadas, o generoso Horacio chamou-a ao escritório (da empresa e da revista) na rua do Ouvidor, 61, no Centro do Rio, e ofereceu-lhe algumas opções sobre como ocupar seu tempo. Que tal um curso de cerâmica em Paris? Ou passar seis meses na Europa? Ou, quem sabe, dirigir a revista? Para surpresa de Horacio, Beki capturou no ar esta última sugestão. Garantiu que faria de Diners uma revista de que ele se orgulharia e que ela, antes de todo mundo, gostaria de ler. Para isto, precisaria de alguém experiente para editá-la e de colaboradores à altura do prestígio do Diners.

Beki convidou o jovem Monteiro a seu apartamento no edifício Chopin, em Copacabana, e expôs seus planos, que o excluíam. Monteiro concordou - nunca trabalhara na grande imprensa, sabia que ainda era verde na profissão e que vinha tocando a revista a título precário. Então, a pedido de Beki, indicou-lhe quatro nomes que, a seu ver, fariam um trabalho magnífico na direção da revista. Pela ordem: Janio de Freitas, ex-editor-chefe do JB e criador da famosa reforma por que passara o jornal em 1959; o cronista José Carlos (Carlinhos) Oliveira; o poeta, crítico de cinema e editorialista do Correio da Manhã, José Lino Grünewald; e o ex-editor da revista Senhor e também editorialista do Correio, Paulo Francis.

Beki chamou os quatro para conversar, um a um. Janio não se interessou pela proposta, Carlinhos Oliveira pareceu-lhe 'muito debochado' e Grünewald, 'intelectual e pacato demais'. Sobrou Francis. O fato de ele ter sido responsável pela melhor fase da falecida Senhor não queria dizer nada para Beki, porque ela nunca ouvira falar na revista. Mas gostou de Francis: 'É arrogante como eu e com um senso de humor que me agrada', ela disse a Monteiro. Além disso, Francis topava fazer a revista que Beki queria - 'esnobe, elegante, inteligente' -, desde que nos seus termos: com plenos poderes e independência total, começando por uma reforma gráfica e pela contratação de gente sua para trabalhar com ele. Beki concordou e só fez um pedido: que seu cachorro Pingo, um micro-yorkshire terrier, pesando menos de 1 quilo e que ela levava na mão onde quer que fosse, saísse na capa do primeiro número de Francis.

Isso deve ter acontecido por volta de julho ou agosto de 1967. Em setembro, Francis foi à minha mesa de foca da reportagem geral do Correio da Manhã e, baseado num artigo meu que lera no Segundo Caderno naquele dia, convidou-me a fazer parte de sua equipe de colaboradores fixos da Diners - na qual já contava com dois dos maiores talentos daquela geração, Flavio Macedo Soares, 24 anos, e Alfredo Grieco, 23, ambos alunos do Instituto Rio Branco e candidatos ao Itamaraty. (O próprio Francis não era tão mais velho: apenas 37 anos naquele dia de setembro. Claro que, para os meus dezenove, ele era um homem quase idoso, imagem que seus cabelos já grisalhos realçavam.) José Carlos Monteiro, convidado a continuar na revista, agradeceu, mas tinha um convite para trabalhar exatamente onde queria: na editoria internacional de O Globo.

Francis assumiu a Diners em janeiro de 1968, e o primeiro número sob sua direção, o de março, já começou com uma rebeldia: Pingo, o cachorro de Beki, não saiu na capa da revista. Mereceu apenas uma matéria interna, meses depois (Eu, Pingo - Autobiografia de um Aristocrata no Exílio, por Nick de Cyprins - sem dúvida, Alfredo). Foi um trauma e, não se sabe se por spleen ou acidente, o minúsculo Pingo caiu ou se atirou da banqueta da penteadeira de Beki e morreu. Mas, vida que segue. Flavio, Alfredo e eu, cada qual dominando diversos assuntos, éramos responsáveis por quase 70% do texto da revista: artigos 'sérios', crônicas de humor, perfis, entrevistas, adaptações de material estrangeiro, traduções etc. Eram tantos os artigos que tínhamos de assiná-los com os vários pseudônimos inventados por Francis: Jean Bogaudy, Jules Duplessys, Sandra Schindler, Mario Bendetti, Eduardo Saint-Clair, Guido Macedo - todos rotativos e este último, meio que só meu. Telmo Martino, ex-colega de Francis no Santo Inácio e recém-chegado da BBC de Londres, foi incorporado ao grupo. Vários outros jovens, como Edgard Telles Ribeiro, Jomico Azulay, Maria Ignez Duque Estrada, Alfredo Lobo e Jaime Rodrigues, também colaboravam. Pedro Oswaldo Cruz era o fotógrafo de plantão e o excelente caricaturista Vilmar fazia quase todas as ilustrações.

Os restantes 30% do texto da revista eram reservados aos grandes nomes: Carlos Drummond de Andrade, Antonio Callado, Paulo Mendes Campos, Glauber Rocha, Millôr Fernandes, Franklin de Oliveira, Armando Nogueira, Octavio Malta, Fausto Cunha, Flavio Rangel, José Lino Grünewald, Joel Silveira, os cartunistas Jaguar e Fortuna, o lingüista Adriano da Gama Kury e outros, todos muito bem pagos. A escolha desses nomes não se devia apenas ao fato de serem, de certa forma, medalhões - porque vários medalhões de verdade tiveram seus textos recusados por Francis. O importante era a qualidade e, nesse sentido, é impressionante a atualidade, até hoje, dos artigos publicados na Diners. O material estrangeiro, quase sempre de ficção, também era do primeiro time: contos de Julio Cortazar, Philip Roth (os dois, quase desconhecidos no Brasil), Dorothy Parker, Ernest Hemingway, Graham Greene, D. H. Lawrence, os perfis de Kenneth Tynan e Rex Reed, os cartuns de Jules Feiffer e, por influência de Grieco, muita science-fiction: Ray Bradbury, Paul Anderson, Robert Sheckley.

O próprio Francis também ajudava a escrever a revista (e não apenas seus artigos assinados), além de criar a maioria dos títulos dos artigos - e, pelo estilo deles, sempre jogando com um subtítulo, via-se que Diners era mesmo uma continuação editorial da Senhor. Claro - porque era Francis quem os escrevia nas duas revistas. Alguns desses títulos eram: 'Os jovens intelectuais - Gatinhas algo agitadas'; 'Ópera: só da vovozinha, não senhor!'; 'Ninguém me chama de Baudelaire' (sobre Antonio Maria); 'Você é o National Kid? Se não, batata, batata, batata'; ou 'Na santa paz da Bastilha - Podem me prender que eu não mudo de opinião'. Às vezes, o colaborador já trazia o título, mas Francis arredondava a coisa com o subtítulo perfeito. Com a experiência adquirida em Senhor, Francis era ainda o gerador da maioria das idéias gráficas, a partir do projeto criado por seu diretor de arte, Dounê Spinola - idéias essas que nem sempre funcionavam porque a revista era impressa na gráfica de O Cruzeiro, cujas máquinas já tinham visto melhores dias. Mas onde Francis se esmerava de verdade era na criação das capas.

Era sempre uma foto, produzida especialmente para a revista em função de alguma matéria. A partir de um artigo sobre a Capitu de Machado de Assis, a dos 'olhos de ressaca', Francis teve a idéia de pedir à socialite Luiza Konder, uma das moças mais bonitas de seu tempo, que posasse para a capa com um saco de gelo à cabeça e sobraçando uma quantidade de garrafas vazias de uísque. A produção não se contentou em providenciar garrafas usadas, já vazias, e nem isso faria jus à classe do Diners. Um estoque de escoceses de primeira linha - Dimple, Chivas Regal, Swing - foi comprado a Catanhede, nosso fornecedor, e discretamente abatido por Francis e alguns de nós na redação. Quando todas as garrafas já estavam no ponto, foram levadas para o estúdio e Luiza deixou-se fotografar lindamente com elas. Notar também que, mesmo no ano mítico de 1968, 'moças de família' ainda não saíam normalmente em capas de revistas, muito menos sobraçando garrafas de uísque. E Luiza não foi a única em Diners - Monique Doria Machado posou de arma fumegante em punho, para uma capa sobre agressão, e Christina Oswaldo Cruz, filha de Beki, posou de noiva (de minivestido) para uma capa sobre casamento, fotografada por seu próprio marido, Pedrinho.

As capas não demoraram a ser uma fonte de problemas entre Francis e Beki. Nos primeiros números, ela fazia parte do grupo que Francis convidava à sala de projeção para palpitar sobre os cromos. Nos números seguintes, Francis já se 'esquecia' de chamá-la para participar da sessão. E, nos últimos, ele só faltava promover sessões secretas, sem Beki, para decidir sobre a foto. Na verdade, a lua-de-mel entre eles quase terminara antes mesmo de começar: quando entrou pela primeira vez no 5º andar do prédio da Ouvidor, onde funcionava a revista, Francis torceu o nariz para a decoração, que classificou de 'kitsch', e disse que ia mandar redecorar tudo - móveis, quadros, equipamentos. Beki se submeteu, embora aquela decoração tivesse sido ordenada por ela, poucos meses antes. E alguns artigos da Diners criaram problemas entre assinantes do cartão, pais de adolescentes, que não acharam graça em receber em casa uma revista que afirmava, entre outras coisas, que a virgindade 'provocava câncer'. Era uma brincadeira, lógico, mas alguns devolveram a revista e outros cancelaram o cartão. Apesar disso, Francis nunca nos pediu que moderássemos.

No segundo semestre, o sucesso de estima da revista era tanto que, numa decisão editorial ousada, Diners passou a ser vendida nas bancas a partir de setembro. A carga publicitária, que já era enorme, aumentou ainda mais, mas as vendas foram um fiasco - os jornaleiros não sabiam o que fazer com a revista. E era também uma revista de alto custo na redação. Os artigos eram pagos contra a entrega - o colaborador já saía dali com o cheque no bolso. E de quanto eram esses cheques? Na mesma época, eu colaborava também no Segundo Caderno (diário) e no Quarto Caderno (dominical) do Correio da Manhã, igualmente dirigidos por Francis - o jornal pagava trinta mil cruzeiros velhos por colaboração e o dinheiro só saía dali a um mês. Na Diners, um artigo do mesmo tamanho ou menor valia trezentos mil cruzeiros velhos, à vista. Para se ter uma idéia do valor desse dinheiro, fui morar no já lendário Solar da Fossa, em Botafogo, pagando 130 mil cruzeiros velhos pelo aluguel de um bom quarto (com banheiro) - por mês!. Ou seja, com uma matéria, eu pagava mais de dois meses de aluguel e ainda sobrava um troco para comprar um LP importado de Charles Mingus ou Fats Waller na Modern Sound. E minha média era de duas matérias por semana para Diners!

A revista poderia ter sobrevivido à indiferença popular, mas não se contava com que, muito antes que ela se firmasse nas bancas, acontecesse o Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro daquele ano. A revista não era política e não tinha por que ser atingida pela truculência dos militares. Mas a crise institucional no país e a ameaça de instabilidade econômica tornavam difícil a existência de uma revista tão cara e de idéias arejadas. Além disso, não ficava bem ao Diners Club manter uma revista cujo diretor fora preso no próprio dia do ato institucional. Francis acabou sendo libertado no Natal, mas Horacio Klabin não se recuperou do trauma. Com a queda considerável da publicidade no primeiro semestre de 1969, ficou também inviável manter a remuneração dos colaboradores, e a própria Beki, desiludida, resolveu encerrar a operação. Em junho de 1969, saiu a última Diners, com material comprado por Francis - e ainda sobraram dezenas e dezenas de artigos, todos pagos, que não se sabe que fim levaram. Era o fim de uma experiência inesquecível para quem a viveu.

Em seguida, quase sem respirar, alguns dos nomes da Diners - Francis, Millôr e eu próprio - iríamos reencarnar numa nova publicação na praça: O Pasquim, fundado, entre outros, por Jaguar. Mas essa é, literalmente, outra história.

   


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