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CADERNO 2
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  Shrift testa sonoridades no CD Lost in a Moment

Formada em Londres, dupla lança disco de estréia e conta com brasileira nos vocais

Adriana Del Ré

A bela cantora brasileira Nina Miranda, de 36 anos, é dona de um carregadíssimo sotaque britânico. Pudera. Aos 8 anos, foi viver na Inglaterra com a mãe, inglesa, onde morou a vida inteira, constituiu família e construiu a carreira. Mais apropriado seria dizer que Nina é uma cantora anglo-brasileira: o sangue brazuca, ela herdou do pai. 'Meu pai, brasileiro, conheceu minha mãe, inglesa, e juntos foram morar no Brasil', conta a cantora. Mas quando era ainda criança, os dois se separaram e o resto da história já é conhecido.

Também compositora, Nina fala o idioma que aprendeu nos primeiros anos de vida, mas, vez por outra, o português lhe falta. Precisa recorrer ao inglês na tentativa de buscar uma tradução. Por isso, grande parte de Lost in a Moment (Six Degrees Records), CD de estréia do Shrift, vem com repertório em inglês. E uma pitada aqui e ali de português, nas letras ou na sonoridade. Shrift é o nome da dupla formada por ela e pelo produtor Dennis Wheatley, compositor e um dos principais responsáveis pelo molho musical do disco.

Antes de conhecer Wheatley, Nina havia sido uma das fundadoras do grupo inglês Smoke City, que emplacou alguns sucessos na Europa, mesclando acid jazz, trip hop, reggae e alguma coisa de música brasileira, como samba e bossa nova. Formada ainda por Chris Franck e Mark Brown, a banda começou engatando um álbum de estréia bem-sucedido, chamado Flying Away, em 1997. 'O disco foi feito com prazer, fluía, porque tínhamos gostos musicais parecidos. Fizemos muito shows', diz ela. Outros fatores também contribuíram para aquela estréia promissora: a trilha sonora que fizeram para um comercial da Levi's e os clipes para músicas como Mr. Gorgeous e Underwater Love. O estouro foi tão inesperado que a cantora, em temporada morando no Brasil, precisou retornar a Londres, para atender à demanda de trabalhos.

Mesma sorte não teve o segundo CD, Heroes of Nature, lançado em 2001, que passou praticamente despercebido. Segundo Nina, a gravadora também não colaborou muito na divulgação. 'Ela não sabia muito bem o que fazer com a gente, o que foi meio frustrante.'

As pazes com a música vieram na parceria com Wheatley, com o novo projeto e o envolvimento de uma gravadora 'de amigos'. E agora, o CD de estréia. Em Lost in a Moment, existe uma comunhão de música climática, experimentalismos, samba, bossa e o que mais couber no caldeirão. O resultado é um universo shriftiano bastante agradável, em que instrumentos tradicionais, como celos e violinos, fazem contraponto saboroso com instrumentos que têm mais a nossa cara, como berimbau, tantã e reco-reco.

A voz frágil de Nina combina com o estilo de calmaria adotado pela dupla. 'Minha voz não é muito forte', admite. É como se seus sussurros brandos embalassem a trilha sonora de um sonho bom. Cai bem também com a bossa nova, em que vozes poderosas não se fazem nem um pouco necessárias.

Nina comenta sobre sua formação musical variada. Por isso, não causa estranheza o fato de ela parecer aberta a tudo que diga respeito a sonoridades. 'Quando eu era criança, meus pais ouviam muita música. Britânica e americana também. Beatles, rock, jazz, samba. A gente gostava bastante de Beatles', ela puxa pela memória. Quando se mudou para Inglaterra, ouvia bossa nova. Hoje, de música brasileira, ela tem outras predileções: Céu, Orquestra Imperial, Nação Zumbi, Gil, Caetano...

'Tom Zé ainda arrebenta', diz. Achou emocionante o show dos Mutantes em Londres. Presta atenção também à nova geração de músicos, encabeçada por Domenico, Moreno Veloso e Pedro Sá. 'Gostei do jeito deles de tocar.' O CD Lost in a Moment pode ser encontrado no Brasil. Já o show da dupla não tem data certa para acontecer por estas bandas. Talvez, depois do carnaval.

   


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