estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   

Julio Mesquita
(1891-1927)
DIRETOR:
Ruy Mesquita

 
 
PARTICIPAÇÃO
ESPECIAIS
MERCADOS/FUNDOS
 
 
  
 
      Busca local   
Sábado, 16 dezembro de 2006   edições anteriores
INTERNACIONAL
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  Humilhação pública de prostitutas provoca indignação na China

Polícia de Shenzen é alvo de críticas por ter exibido 100 mulheres e clientes como nos tempos da Revolução Cultural

Edward Cody, THE WASHINGTON POST, PEQUIM

Para as autoridades locais que lutam contra a reputação de Shenzhen de antro da imoralidade, pareceu uma boa idéia - o método perfeito para dissuadir as garotas provincianas de prostituir-se na cidade grande e intimidar os homens que freqüentam os bordéis. Assim, depois de uma incursão nos karaokês, saunas e barbearias onde as prostitutas costumam oferecer seus serviços, a polícia desta próspera cidade no sul da China fez cerca de 100 mulheres e seus supostos clientes desfilarem pela rua, usando alto-falantes para anunciar seus nomes e os crimes pelos quais eram acusados. O espetáculo foi visto por milhares de moradores.

O caso, ocorrido em 29 de novembro no distrito de Futian, não foi um evento extraordinário para uma nação onde os transgressores são tradicionalmente submetidos à humilhação pública. Em particular, o espetáculo lembrou a Revolução Cultural dos anos 60 e 70, quando cidadãos qualificados de intelectuais ou reacionários eram rotineiramente apresentados a multidões que se divertiam ridicularizando-os, insultando-os e às vezes espancando-os.

No entanto, como descobriu o Departamento de Segurança Pública de Futian, os tempos mudaram. Em vez de ser elogiada por reprimir o vício, a polícia do distrito virou alvo de uma enxurrada de críticas por violar a privacidade das pessoas exibidas em público.

A rápida reação, em entrevistas em jornais e na internet, ofereceu um retrato dramático da distância que este vasto país percorreu desde a Revolução Cultural, quando muitos cidadãos apoiavam essas táticas e aqueles que discordavam tinham medo de falar, temendo represálias.

A reação ajudou a explicar por que as reclamações dos EUA e outros países ocidentais sobre as restrições aos direitos humanos na China às vezes são ignoradas por aqui. Embora ativistas chineses e estrangeiros possam apontar muitos abusos remanescentes, especialmente por parte de forças policiais como a de Futian, muitos chineses vêem tanto avanço em relação ao passado que preferem ressaltar o caminho percorrido a admitir o que falta percorrer.

“Isso mostra que o público tem uma consciência mais sólida dos direitos humanos e da proteção da privacidade”, disse Kang Xiaoguang, sociólogo do Instituto de Desenvolvimento Rural da Universidade Popular da China. “Há 20 anos, esse tipo de desfile teria sido aplaudido por todos. Agora, isso gera mais crítica que apoio, pois mais pessoas entendem que seus direitos devem ser protegidos. E existem, é claro, mais canais para a expressão da crítica, como a internet.”

Um indignado advogado de Xangai, Yao Jianguo, deu início à onda de protestos contra os métodos de Shenzhen há duas semanas, com uma carta aberta ao Congresso Nacional do Povo. A carta denunciava que o desfile era ilegal segundo as leis atuais e provavelmente exerceria “influência nociva” sobre o povo chinês e a reputação do país no exterior.

“Estas pessoas eram apenas acusadas de crimes”, reclamou Yao. “Ainda não tinha sido determinado se elas haviam violado a lei. A polícia as humilhou publicamente, o que viola o processo legal. Esta forma brutal de punição foi abandonada há tempos por nossa sociedade com o desenvolvimento da civilização e de um sistema legal.” A Federação das Mulheres da China também se manifestou, qualificando o desfile de insulto à imagem das chinesas, informou a imprensa. “Tal punição bárbara não tem lugar na sociedade moderna”, disse uma porta-voz.

O governo não ofereceu nenhuma resposta oficial. O Departamento de Segurança Pública de Shenzhen afirmou que nada teve a ver com o desfile. Mas não quis informar se o espetáculo foi ilegal ou se algum funcionário policial de Futian seria punido. Xu Desen, o secretário do Partido Comunista do distrito, endossou o desfile como uma boa tática para desencorajar a prostituição. Ele elogiou a polícia pela repressão e disse que ela continuará.

Shenzhen e os subúrbios da área promovem uma campanha contra a prostituição há anos. Mas a cidade, rodeada por vastas áreas industriais com trabalhadores que passam longos períodos longe da família, continua abrigando uma próspera indústria do sexo.

Apesar desse problema, muitos cidadãos chineses acharam que a polícia, desta vez, foi longe demais. Ao longo da última semana, eles se manifestaram - com relativo anonimato - na internet. Alguns defenderam a tática como uma dissuasão eficaz e observaram que os prisioneiros usavam máscaras cirúrgicas para proteger suas identidades. Mas a maioria concordou com Yao.

“Mesmo ao impor a lei, a polícia deveria respeitar os direitos humanos”, afirmou um internauta. “Existe algum artigo na lei chinesa afirmando que a polícia pode fazer as pessoas desfilarem diante do público? Se não existe, quem lhe deu autoridade para fazer isso?” Outro usuário indignado acusou a polícia de Futian de voltar ao passado sombrio. “Exposição pública? Esse era o tipo de coisa que acontecia na Revolução Cultural”, disse ele. “Aqueles que fizeram as prostitutas desfilarem na rua se humilharam tanto quanto elas.”

   


    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.