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A menina e o mestre
Amanda Marques Pereira, de 12 anos, festeja empate com o astro do xadrez Anatoly Karpov. “Ele tava com medo”
Um fã pode passar a vida na busca de uma oportunidade de encontrar seu grande ídolo. Ter a chance de enfrentá-lo, então, é para poucos. Pois Amanda Marques Pereira, de 12 anos, atingiu este objetivo. Fez mais do que isso. Na quinta-feira à tarde, no Campus Dutra da Universidade de Guarulhos, a menina, juntamente com outros 23 jovens, enfrentou o ex-campeão mundial de xadrez Anatoly Karpov. E após uma hora e meia de jogo recebeu a proposta do adversário para que o duelo terminasse empatado. “Ele ficou com medo de mim”, brincou a garota, que ostenta um título pan-americano, cinco brasileiros e cinco paulistas em seis anos de carreira.
As bochechas rosadas denunciavam o nervosismo durante o confronto. “Foi uma emoção enorme. Meus professores sempre falam muito dele. Foi como um sonho”, disse a menina, que faz parte do Projeto Segundo Tempo da Prefeitura de Guarulhos. Além de Amanda, Rodrigo Jukemura também obteve um empate.
Na sua sexta visita ao Brasil, Karpov, campeão do mundo de 1975 a 1985, disse estar impressionado com o desenvolvimento do xadrez no País. “Está sendo feito um trabalho de massificação nas escolas e vejo um futuro brilhante para o Brasil.” Amanda estuda no Colégio Albert Sabin, onde, segundo Tânia, sua mãe, o xadrez é matéria curricular nos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental.
Segundo Horácio Prol, presidente da Federação Paulista de Xadrez, são 600 jogadores cadastrados em São Paulo e 1,5 mil no Brasil. “O problema é que muita gente não tem dinheiro para pagar os gastos de uma competição”, disse o dirigente.
HOMEM X MÁQUINA
Karpov aproveitou para comentar a derrota do compatriota Vladimir Kramnik, atual campeão mundial, para o computador Deep Fritz. “A disputa com as máquinas não são justas. O jogador deveria ter acesso ao mesmo banco de dados que o computador”, disse o mestre. “Mas acho fora de propósito esta hipótese, pois os programadores de computadores não iriam aceitar.” Ao mesmo tempo em que critica as máquinas, a lenda do xadrez reconhece a importância da internet para o desenvolvimento do esporte. “Hoje temos um número muito grande de excelentes jogadores de 13, 14 anos por causa do aprendizado via computadores”, disse Karpov, que não considera Kramnik, de 31 anos, um talento à altura de outros grandes jogadores do passado.
Protagonista de matches históricos contra Victor Korchnoi (1978 e 1981), quando foi implacável, e diante de Gary Kasparov (1985, 1986, 1987 e 1990), seu maior rival dentro e fora dos tabuleiros - para quem saiu derrotado após 144 extenuantes partidas -, Karpov afirmou que o maior duelo de sua carreira teria sido contra o norte-americano Bobby Fischer. “A falta deste duelo foi uma grande perda para o xadrez. Mas não se pode forçar ninguém a fazer o que não quer”, disse Karpov, de 55 anos, lembrando a recusa do adversário em disputar um match em plena Guerra Fria. Aliás, política é algo que Karpov nem comenta. “Não sou comunista”, disse o ex-protegido do Kremlin, que hoje vive como embaixador do xadrez. São mais de 270 dias de viagens por ano, ao custo de um cachê diário de US$ 1,5 mil.
Wilson Baldini Jr. GUARULHOS
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