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Julio Mesquita
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Domingo, 19 novembro de 2006   edições anteriores
ECONOMIA & NEGÓCIOS
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  'O mercado era mais livre no século 19'

Milton Friedman, economista

Para Friedman, o caminho do sucesso para os países subdesenvolvidos é o livre mercado e a globalização

Milton Friedman, que morreu nesta quinta-feira, aos 93 anos, foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 1976. Suas idéias sobre o monetarismo e a teoria do laissez-faire tiveram grande influência nas últimas décadas e sobre importantes figuras políticas, de Margaret Thatcher a Ronald Reagan. A seguir, uma das últimas entrevistas de Friedman, concedida em novembro de 2005, em seu apartamento em San Francisco, ao editor Nathan Gardel.

O sr. viu muita coisa nessa sua longa vida e refletiu sobre grandes temas. Sobre o que o sr. está pensando nos dias de hoje?

A grande questão é se os Estados Unidos terão sucesso na iniciativa de transformar o Oriente Médio. Não estou tão certo de que o uso da força militar seja o meio para isso. Não devíamos ter entrado no Iraque, mas entramos. No momento, o problema mais premente é assegurar que o esforço seja concluído de maneira satisfatória. Não há dúvida de que o peso da América no mundo - em grande parte por causa da atração e a promoção de nossas liberdades liberais - está sendo corroído em conseqüência do que acontece no Iraque. Contudo, se, no final, o Iraque emergir como um país autonômo, que não é mais uma ameaça para ninguém, isso terá um efeito favorável no Oriente Médio em geral. Como resultado, haveria um aumento do prestígio. Mas, no momento, não é o caso. Até agora, o efeito tem sido o contrário.

A chamada velha Europa - França, Alemanha e Itália - está estagnada, registrando alto índice de desemprego. A Alemanha, um dos últimos baluartes do estado do bem-estar social Keynesiano, do período da Guerra Fria, tem hoje uma líder conservadora, Angela Merkel. O que deve ser feito para que a Alemanha e, por extensão, a velha Europa, entrem de novo nos trilhos?

Devem imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Resumindo: adotar o sistema dos livres mercados. O problema da Alemanha, em parte, é que ela aderiu ao euro com uma taxa cambial errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Assim, você tem uma situação na zona do euro onde a Irlanda tem inflação e uma rápida expansão, enquanto que Alemanha e França ficaram paralisadas e tiveram dificuldades para se ajustar. O euro vai se tornar uma grande fonte de problemas e não uma fonte de auxílio. O euro não tem nenhum precedente. Pelo que eu saiba, nunca houve uma união monetária, lançando uma moeda criada, composta de Estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas nunca dinheiro criado - dinheiro tentado a inflacionar - criado por entidades politicamente independentes. No momento, naturalmente, a Alemanha não pode sair do acordo. O que deve fazer, então, é flexibilizar a economia, eliminar as restrições sobre os preços, os salários e o emprego. Em resumo, eliminar os regulamentos que mantêm 10% da força de trabalho alemã desempregada. Isso é bem mais urgente agora do que seria se a Alemanha não participasse da zona do euro. Esse conjunto de políticas desbloquearia o potencial alemão. Afinal, a Alemanha tem uma mão-de-obra capaz e produtiva. Possui produtos de alta qualidade valorizados em todo o mundo. Tem todas as possibilidades de ser um estado produtivo e próspero. Apenas precisa dar uma oportunidade aos seus empresários. Deixar que eles lucrem, contratem, despeçam e atuem como empresários. Mas ao invés disso, como resultado das políticas adotadas no passado, o que se vê são as empresas alemãs levando muitas das suas atividades para fora da Alemanha. Investindo no exterior e não internamente, porque não existem a abertura, a fluidez e as oportunidades que encontram longe das suas fronteiras.

O primeiro-ministro britânico Tony Blair afirma que existe uma 'terceira via' - por exemplo mercados de trabalho flexíveis, não no estilo americano do contratar e despedir. Para ele, esse caminho é o mais ajustável ao 'modelo social europeu' com sua permanente preocupação com a justiça social. Seria um caminho intermediário, ou deve ser tudo ou nada?

Não acredito que haja uma terceira via. Mas é verdade que um mercado competitivo não significa o conjunto todo da sociedade. Grande parte depende das qualidades da população e da nação na forma como organizam os aspectos da sociedade que não estão ligados ao mercado.

A taxa de inflação nos EUA, como também globalmente, permanece historicamente baixa, mesmo com o aumento vertiginoso dos preços do petróleo. Por quê?

A inflação é um fenômeno monetário. É fabricada ou contida pelo banco central. Não houve nunca um período similar na história como os últimos 15 anos, em que o nível de preços flutua muito pouco. Não importa o que aconteça, este padrão será mantido enquanto o Federal Reserve (banco central americano) mantiver uma política monetária rigorosa e o controle da base monetária. O mesmo vale para a Europa. O Banco Central Europeu tem mantido baixa a taxa de crescimento monetário. Assim, os preços estão estáveis. Contudo, as pressões na Europa serão bem mais fortes do que nos Estados Unidos. A principal pressão será no sentido de impressão da moeda e ser mais expansiva para promover o emprego. As decisões do Banco Central Europeu na verdade dependem do apoio da Alemanha, da França e da Itália. A Itália pode bem ser o principal problema. O país se beneficiou muito com o euro ao conseguir manter a taxa de juro em euro ao invés de manter em sua própria moeda. Ela seria muito mais alta porque a Itália acumulou um débito grande. No passado teve uma inflação além da dívida. A grande virtude do euro, portanto, está no fato de que a Itália não pode agir sozinha. Uma política rigorosa do Banco Central Europeu não permitiria que aquilo acontecesse novamente. Neste sentido, o euro é bom para a Europa. Mas somente se houver flexibilidade total. O problema é que, num mundo de taxas de câmbio flutuantes, como foi o caso da Itália antes do euro, se um país for submetido a um choque que exija um corte de salários, não poderá fazer isso com um tipo de sistema regulatório e de controle moderno. É muito mais fácil fazer isso permitindo mudanças na taxa de câmbio. Nesse caso, apenas um valor precisa mudar. Mas, no momento, no caso do euro, essa opção está sendo suprimida. A única alternativa, se um estado precisar se ajustar a um choque, será autorizar uma variação dos preços internamente. Deixar que os salários caiam ou as taxas de juro internas subam, se necessário.

A dívida do Tesouro americano está em mãos principalmente da China, do Japão e da Coréia do Sul. Este enorme déficit externo no balanço de pagamentos é um problema para os Estados Unidos e a economia mundial?

Não acho. Pode muito bem ser uma miragem estatística. Se você examinar o balanço, os Estados Unidas estão fortemente endividados. Se examinar a conta de receitas, o montante de juros que os Estados Unidos pagam ao exterior - é quase exatamente igual ao montante de juros que recebe do exterior. Os ativos americanos mantidos no exterior estão proporcionando uma taxa de retorno maior do que os ativos estrangeiros mantidos aqui no país. Isso é compreensível porque o que mais atrai as pessoas e os países para os Estados Unidos é que este país oferece segurança, na verdade um seguro contra a instabilidade política. Ninguém teme que o dinheiro que aplica nos Estados Unidos corre o risco de uma expropriação ou de que, de alguma outra forma, seja confiscado. Por sua segurança, os detentores da riqueza do mundo estão dispostos a aceitar uma taxa de retorno menor. Os ativos americanos no exterior, ao contrário, correm mais risco e, portanto, têm uma taxa de retorno mais alta. Isso explica porque existe um equilíbrio aproximado em termos reais. Não está claro se realmente existe uma dívida. Parece que essas preocupações de um desequilíbrio são equivocadas. Não me preocupa nada que China e Japão detenham grande parte da dívida dos Estados Unidos. De certa forma parece estúpido que eles mantenham essa dívida, porque as taxas de retorno são menores do que em outras partes. Mas o problema é deles.

O grande déficit fiscal dos Estados Unidos o preocupa?

Absolutamente. É a despesa que me preocupa. Se o governo dos EUA gasta 40% do rendimento da nação, como o faz, tomando empréstimos ou por meio de impostos, essa receita não está disponível para as pessoas gastarem. O déficit é um método indireto de taxação. Naturalmente os políticos preferem tomar empréstimos ao invés de tributar porque alguém então, no caminho, terá que lidar com as conseqüências. No momento, o grande déficit tem um efeito positivo de refrear futuros gastos. Nesse sentido, é uma boa coisa. Mas não é bom se esse déficit for produzido por mais despesas.

A China tem registrado um tremendo crescimento desde 1979 por meio do que se poderia chamar de um modelo de 'mercado leninista' , ou um 'sistema de livre mercado autoritário' como o governo Pinochet que o senhor assessorou no Chile. Este modelo pode durar?

Não. Acontecerá na China o mesmo que aconteceu no Chile. A liberdade política no final romperá as suas cadeias. O episódio da praça Tiananmen foi apenas o primeiro. O caminho é no sentido de uma série de episódios iguais. O país não pode continuar a se desenvolver no setor privado e ao mesmo tempo manter seu caráter autoritário politicamente. Caminha para um confronto. Mais cedo ou mais tarde, um ou outro cederá. Se não promover uma abertura política, seu crescimento econômico acabará, embora ainda esteja num nível muito baixo. A situação não é totalmente sombria. A liberdade individual aumentou enormemente dentro da China e isso provocará mais pontos de conflito entre o individuo e o estado. Há uma nova geração que foi educada e viaja para o exterior. Conhece as alternativas que existem fora. Assim, o caráter autoritário de certa forma está se abrandando. Hong Kong é o exemplo a ser seguido. Se os chineses cumprirem seu acordo, para permitir que Hong Kong prossiga no seu percurso, a China também seguirá esse caminho. Se não, será um mau sinal. Estou otimista.

Que impacto a Internet teve sobre a liberdade e os mercados?

Um efeito tremendo. Veja o que está acontecendo na China. As pessoas podem se falar e o governo, apesar dos maiores esforços, não consegue controlar isso. A internet também nos levou mais próximo da 'informação perfeita' sobre mercados. Os indivíduos e empresas podem comprar e vender através das fronteiras e jurisdições onde encontrem a melhor correspondência entre oferta e procura. Sem dúvida, a internet reduziu as possibilidades de taxação. Por que devo comprar uma coisa aqui se posso comprar de uma empresa no Japão, na Inglaterra ou no Brasil pagando menos imposto? A internet é o mais eficaz instrumento que temos para a globalização.

Então o sr. vê a marcha da liberdade e dos livres mercados avançando no século 21 e não recuando na China ou em outra parte?

Sim. O mundo como um todo mais ou menos adotou a liberdade. O socialismo, no sentido tradicional, significou a posse e a operação dos meios de produção pelo governo. Exceto a Coréia do Norte e outros lugares. Ninguém no mundo hoje define socialismo nesse sentido. Jamais haverá uma volta. A queda do Muro de Berlim fez mais para o avanço das liberdades do que todos os livros escritos por mim, Friedrich Hayek e outros. O socialismo hoje deve só significar que o governo extrai a renda dos que têm para dá-la aos que não têm. Trata-se de transferir renda e não propriedade.

Com a globalização estamos vendo a economia mundial mais livre como nunca foi visto antes?

Não. Tivemos um mercado muito mais livre no século 19. Temos muito menos globalização agora do que naquela época. Avançaremos até chegarmos àquele nível de liberdade? Não sei. Temos um mundo mais livre por causa do colapso da União Soviética e as mudanças na China. Esses dois países foram os que mais contribuíram para a liberdade em nossa época. Os países que se levantaram e se separaram, em conseqüência do colapso da União Soviética estão, no geral, seguindo políticas econômicas mais livres. Muitos desses estados têm governos mais livres e menos restrições ao comércio. Essa base de livre mercado deve expandir dando-se exemplos a outros não tão livres. Todo mundo hoje compreende que o caminho para o sucesso para os países subdesenvolvidos é o livre mercado e a globalização.

No final, suas idéias triunfaram sobre as de Marx e Keynes. Este, então, é o fim do caminho para o pensamento econômico? Existe algo mais a ser dito além de que os livres mercados são o meio mais eficaz para organizar uma sociedade? É o 'final da história', como afirmou Francis Fukuyama?

Não. 'Livres mercados' são uma expressão muito geral. Há outros tipos de problema que surgirão. Os mercados livres funcionam melhor quando a transação entre dois indivíduos afeta apenas aqueles indivíduos. Mas essa não é a realidade. O fato é que, muito freqüentemente, uma transação entre duas pessoas afeta uma terceira parte. Esta é a fonte de todos os problemas para o governo. Esta é a fonte de todos os problemas de poluição, do problema da desigualdade. Há alguns bons economistas, como Gary Becker e Bob Lucas, que estão trabalhando nessas questões. Esta realidade garante que o fim da história nunca chegará.

FRASES

CHINA: 'Acontecerá na China o que aconteceu no Chile. A liberdade política romperá suas cadeias'

MOEDA: 'O euro vai se tornar uma grande fonte de problemas e não uma fonte de auxílio'

TECNOLOGIA: 'A internet é o mais eficaz instrumento que temos para a globalização'

   


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