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Ouro Preto abriga esculturas de palavras
Começa hoje, na cidade histórica mineira, o Flop, fórum de escritores nacionais e estrangeiros, como Efraim Medina Reyes
Ubiratan Brasil
Primeiro a Flip, agora o ano literário se encerra com o Flop, o Fórum Literário de Ouro Preto, que começa hoje na histórica cidade mineira. Até domingo, escritores nacionais e estrangeiros vão participar de debates, palestras, exposições, oficinas e saraus literários. Todos com o objetivo de discutir e disseminar os diversos aspectos relativos à produção literária contemporânea.
Para a abertura do evento, está confirmada a apresentação da cantora Adriana Calcanhotto. Outros nomes certos são o da jornalista norueguesa Asne Seierstad, autora do best-seller O Livreiro de Cabul, livro-reportagem sobre a vida de mulheres no Afeganistão pós-Taleban; o historiador francês Roger Chartier, o angolano José Eduardo Agualusa, o moçambicano Nelson Saute, e o colombiano Efraim Medina Reyes, além dos brasileiros Sérgio Sant'Anna, José Miguel Wisnik, Ana Miranda, Adriana Lisboa, Silviano Santiago, Ana Maria Machado, Juremir Machado da Silva, Nelson Motta, Marcelino Freire, Eucanaã Ferraz, Carlos Ávila, Fernando Morais, Ricardo Kotscho, e os jornalistas Edney Silvestre e Mônica Waldvogel.
Um dos mais esperados, o colombiano Efraim Medina Reyes pretende tratar de política e literatura. 'É impossível dissociar um assunto do outro, embora muitos autores ainda acreditem que a escrita deve ser consumida apenas como diversão', comentou ele com o Estado, ontem, durante sua passagem por São Paulo, onde participou da Balada Literária. 'Da minha parte, não posso ignorar o presidente colombiano Álvaro Uribe, político que concentrou o poder e se aliou aos corruptos que antes combatia.'
O uso da palavra é o principal pretexto para Reyes apresentar uma reflexão sobre diversos aspectos da vida. Autor dos romances Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin e Era uma Vez o Amor mas Tive Que Matá-lo, editados pela Planeta, além dos poemas que formam Pistoleiros/Putas e Dementes, lançados pela Garamond, ele figura entre os escritores latinos que tornam público seu esgotamento pela realidade mágica e revelam uma literatura urbana, ancorada na cultura pop como a televisão e os quadrinhos.
Os dois romances pertencem a uma trilogia (formada ainda por Sexualidade da Pantera Cor de Rosa, inédito em português)que trata de representar certos códigos geracionais, especialmente os que regem a sociedade de seu país. 'A vida cultural na Colômbia é algo criminal, em razão da constante turbulência que marca a rotina dos cidadãos', comenta Reyes, que divide sua rotina entre o país onde nasceu e a Itália, onde escreve artigos políticos para uma revista. 'A verdade não pode ser dita por inteiro com o risco de custar a própria vida.'
O acesso também é limitado e Reyes utiliza a própria obra como exemplo: cada um de seus livros custa, na Colômbia, cerca de 40 mil pesos, o equivalente ao gasto alimentar de uma família durante uma semana. Por conta disso, ele e amigos italianos, argentinos, espanhóis, além de colombianos, fundaram a Fracasso Ltda., empresa com o propósito de divulgar literatura, cinema e música de forma gratuita.
São essas três artes, aliás, o principal combustível de Reyes, que busca na melodia musical o caminho para descobrir o ritmo de suas palavras. 'O ritmo é o que mais importa quando crio uma história, posso ouvir as palavras se formando na minha cabeça', conta ele que, por conta do gosto pelo experimentalismo na escrita, já foi comparado a outsiders, como Bukowski. Apesar de existente, essa influência é apenas superficial - a prosa de Reyes busca aproximação com o humor e a inteligência de autores como Lawrence Sterne. 'É a forma que encontro para transmitir minha angústia.'
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