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Julio Mesquita
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Domingo, 8 outubro de 2006   edições anteriores
CADERNO 2
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  Graciliano Ramos

JORGE AMADO

Pelos meados de 1933, tomei no Rio um pequeno navio da Companhia Nacional de Navegação Costeira, um daqueles 'Itas' que viraram folclore e música popular, e rumei para Maceió, onde habitava Graciliano Ramos. Era nos tempos heróicos do 'Movimento de 30', movimento literário que sucedia ao 'modernismo', somando um interesse real pelo homem brasileiro e seus problemas às conquistas formais da 'Semana de Arte Moderna'. O 'modernismo' processara-se na cúpula de salões literários, em São Paulo e no Rio, e de revistas de pequena circulação. Só muitos anos depois o público viria tomar conhecimento dos grandes nomes de 22 e um Mario de Andrade, por exemplo, só alcançaria um vasto círculo de leitores nos dias de agora, de um Brasil em luta contra o subdesenvolvimento, industrializando-se, rasgando estradas para a Amazônia, construindo Brasília. Apenas em Recife um jovem pernambucano de formação científica (coisa rara no Brasil de então), cujo bom gosto literário e qualidades de escritor já eram evidentes, viu mais longe que os corifeus sulistas do 'modernismo': Gilberto Freyre. À simples revolução estética dos paulistas ele opunha a visão dos problemas nacionais, o conhecimento do homem e do País. O 'movimento de 30' processou-se, por assim dizer, no meio da rua, entre o povo. Essa a sua diferença essencial para o 'modernismo'.

Surgiam nomes e livros e logo tornavam-se populares, começou a existir uma coisa antes desconhecida no Brasil: o publico ledor. Nomes e livros: José Américo de Almeida e 'A Bagaceira', ainda em 1928, o primeiro, sem o qual não existiríamos; Rachel de Queiroz e 'O Quinze'; José Lins do Rego e 'Menino de Engenho'; Amando Fontes e 'Os Corumbas'; Erico Verissimo e 'Clarissa'; José Geraldo Vieira e 'A Mulher que Fugiu de Sodoma'; Lucio Cardoso e 'Maleita'; Marques Rebelo e 'Oscarina'. E Gilberto Freyre com seu 'Casa Grande & Senzala', um impacto na vida cultural como ainda não assisti a outro depois. Apesar de que alguns desses então jovens escritores estreantes eram do Sul do País, falava-se sobretudo em 'romance do Nordeste', talvez porque mais marcadas nos nordestinos certas preocupações do ambiente brasileiro, de todo o povo.

Naquele ano de 1933 começou-se a falar no nome de Graciliano Ramos, a propósito de uns relatórios que, como Prefeito de uma pequena cidade do interior, Palmeira dos Índios, enviara ao governo do Estado. Os originais de um romance seu haviam chegado à Editora Schmidt, espécie de Meca do 'movimento de 30'; eu lera esses originais e enchi-me do mais completo entusiasmo.

Naquela época Maceió era importante centro cultural: lá estavam os paraibanos José Lins do Rego e Santa Rosa, a cearense Rachel de Queiroz, e, entre os alagoanos, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aurelio Buarque de Holanda, Carlos Paurilio, Alberto Passos Guimarães, Aluisio Branco. Aliás, foram Alberto Passos e Santa Rosa, recém-chegados ao Rio, os incentivadores de minha viagem. Tendo feito uma parada em Aracaju para ver uma namorada - conhecimento de viagem anterior noutro dia - toquei-me para a capital de Alagoas. Viagem feliz: fiz amigos que, alguns, o são, e dos melhores, até hoje, e outros que o foram durante toda a vida, esses que a morte já levou. De 1933 a 1953, quando ele morreu, fomos, Graciliano e eu, amigos de todos os dias e em todas as situações. Situações por vezes bem difíceis, duras ou complicadas, pois esses vinte anos incluíram, em seu bojo, uma grande guerra mundial e, no Brasil, pequenas guerras locais.

A publicação de 'Caetés' precedeu de apenas poucos meses a de 'São Bernardo' e logo toda a crítica e o público compreenderam a importância do novo escritor, sentiram o aparecimento de um verdadeiro mestre de nossa ficção, nome a juntar-se a uns poucos como Machado de Assis e Aluízio Azevedo. Pode-se dizer que Graciliano Ramos foi considerado um 'clássico' do romance e do conto brasileiro quando ainda era vivo. Escreveu mais dois romances, além desses primeiros, 'Angústia' e 'Vidas Secas'. Com este último, retomando o tema que parecia esgotado das secas, do árido sertão de retirantes, deu à nossa literatura uma de suas obras-primas, livre de densidade incomum, de raro equilíbrio, de comovedora beleza. Recordo-me do 'velho Graça' (Graciliano estreou aos quarenta e poucos anos de idade e nós, seus companheiros de literatura, alguns bem mais moços que ele, sempre o chamamos carinhosamente, de 'velho') escrevendo esse romance, entre sucessivos cigarros e grandes xícaras de café. 'Vidas Secas' ganhou o mundo, creio ser o romance de Graciliano mais traduzido e publicado no estrangeiro.

Graciliano foi mestre do romance e mestre do conto, como Machado de Assis e Lima Barreto. Caso bem raro em nossa literatura, onde poucas vezes um escritor consegue ser mestre nos dois gêneros. Quase sempre contistas excelentes são romancistas medíocres ou vice-versa. No caso especial de 'Vidas Secas', o romance - e romance de primeira qualidade - é formado por um conjunto de narrativas que, tomadas isoladamente, são contos também da melhor qualidade. Aliás, de quando em vez aparecem em antologias de contos capítulos de 'Vidas Secas', Graciliano foi, entre os escritores do 'movimento de 30', o que mais se aproximou da perfeição. Ante a justeza, a correção brasileira da língua portuguesa por ele escrita, nós, os outros ficcionistas do Nordeste, somos uns bárbaros. Esse sertanejo de Palmeira dos Índios nasceu clássico, um clássico brasileiro.

Sertanejo feito de uma só peça, um caráter, uma consciência. Não foi só um grande escritor, foi um grande homem. Em cargos de governo - diretor da Imprensa Oficial ou Secretário de Educação em seu Estado - nas pensões baratas da rua do Catete, no Rio, nas celas das prisões, na trágica promiscuidade da Colônia Correcional, na banca de jornal corrigindo originais de jornalistas famosos, no tempo final da enfermidade terrível, guardou sempre uma dignidade exemplar de homem e de cidadão. Pessimista em relação aos políticos e à via literária, foi extraordinária sua confiança no povo, sua fidelidade à literatura. Homem de quebrar, jamais de dobrar-se, sem vaidade mas de profundo orgulho, reservado e mesmo tímido em certos momentos, soube, no entanto, não se isolar da vida e dos homens, não fugir às obrigações impostas por seu tempo dramático. O livro que nos dá a sua justa medida de homem, de um homem muito além do comum, é 'Memórias do Cárcere', no qual a alta qualidade literária imortaliza um depoimento espantoso sobre uma época espantosa de nossa vida nacional.

Esse homem seco e difícil, seco de carnes, econômico em sua literatura da qual eliminou qualquer gordura, cuja amizade era moeda de câmbio alto, reservada para alguns, que começou a escrever já maduro e que morreu cedo, em plena força criadora, esse Graciliano Ramos do interior das Alagoas, com algo de senhor feudal e de cangaceiro reivindicador, foi um dos homens mais doces e ternos que conheci, dos mais fiéis aos seus amigos - a lealdade era sua virtude fundamental.

Recordo o velório de seu corpo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro: escritores choravam pelos cantos, choravam homens rudes, operários, gente humilde do povo. Ele não era um líder nem mesmo um escritor de fácil popularidade. Mas sua grandeza era compreendida por todos, todos sentiam que havíamos perdido um dos nossos maiores artistas, um homem excepcional.

A edição portuguesa de 'Vidas Secas' circula quando a Editora Martins, de São Paulo, lança uma coleção com as 'Obras Completas de Graciliano Ramos', incluindo três volumes inéditos de crônicas, artigos, histórias. Traduções de seus livros aparecem em checo, em italiano, em russo, em francês. Nas escolas e faculdades jovens curvam-se sobre sua obra a estudá-la, o seu público cresce a cada dia que passa. Um escritor cuja memória é amada e honrada por todo seu povo.

N. da R. - Este artigo servirá de prefácio à edição portuguesa de 'Vidas Secas', que, de acordo com o contrato editorial, não será distribuída no Brasil.

   


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