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Fala, Amendoeira
ANTÔNIO CÂNDIDO
Um fenômeno interessante da literatura brasileira é a persistência da crônica. Antes se chamou folhetim, e sempre achou quem a cultivasse com tão boa mão, que os seus produtos, efêmeros em teoria, se reúnem não obstante com felicidade no livro, resistindo bem à prova deste veículo de escritos destinados a vida mais longa. As de Alencar são muito boas; são excelentes as de Machado de Assis e Olavo Bilac; as de João do Rio ainda se lêem com prazer.
Embora seja imprudente comparar sem a perspectiva do tempo, talvez se possa dizer que estamos período áureo da crônica brasileira. Mesmo porque, só agora tem sido cultivada como gênero autônomo, capaz de absorver vocações que até aqui preferiam realizar-se noutros, tomando-a como linha auxiliar. É notadamente o caso de Rubem Braga, que se realiza como escritor de alto porte sem deixar os seus limites. Outros, todavia, encontram nela válvula para componentes secundários da personalidade literária, e, sem nela se fecharem, trazem-lhe contribuição de igual nível. Em conseqüência, ela se vem tornando um dos ângulos mais vivos do panorama literário.
Em Antônio de Alcântara Machado (cujos contos, aliás, são crônicas disfarçadas) é ampliação da notícia. Com Mário de Andrade, vira ensaio-relâmpago, e, com Manuel Bandeira, uma forma curiosa de depoimento. E enquanto Paulo Mendes de Almeida faz dela um sketch de ácido humorismo, Gustavo Corção a utiliza como meditação ou panfleto.
Este livro de Carlos Drummond de Andrade se junta a dois anteriores (Confissões de Minas e Passeios na ilha) para mostrar os vínculos que pode manter com a poesia. Vemos então que permite, na sua forma sintética e livre, certo tipo de expressão que dá aos fatos e aos seres uma gratuidade etérea, incluindo-os no domínio poético e esclarecendo o seu significado. Uma poesia diferente, muito peculiar e acolhedora. No caso de Drummond, mais solícita e macia que a dos seus versos, pois aqui ele desata a crispação, estando em galho onde as suas responsabilidades são outras, e menos essenciais. Esse week-end literário adoça a aspereza do poeta.
As crônicas de Fala, Amendoeira estão ordenadas em Mentiras, Lugares, Costumes, Problemas, Datas, Letras, Bichos, Meninos, Despedidas, Situações. Umas interessarão mais do que outras, conforme o gosto de cada leitor; mas praticamente não há escolha. São pequenas obras-primas de emoção, ironia, argúcia, piedade, malícia e, sobretudo, maestria na escrita.
Como definir em poucas palavras o método que preside a sua concepção? Modificando o título de um livro de Queneau, diríamos que constituem uma pequena mitologia portátil.
Tudo sai da possibilidade, que a crônica oferece, de falar um idioma poético sobre coisas que geralmente não chegam à expressão literária, perdendo-se a cada instante com a impressão ou emoção efêmera que as acompanha: sustos, aborrecimentos, surpresas, fatos de toda hora. Um mundo fugidio e circunstancial, mas que representa, no fundo, a maior quota da nossa realidade, trocada nos miúdos do dia que passa. Ao suspender o seu vôo por meio da expressão, que discerne, o cronista-poeta fixa a sua verdade, incorporando-a ao mundo da forma.
Aí entra a mitologia, porque a operação consiste afinal em encontrar um significado para essa revoada de pequenos traços do cotidiano; e este significado surge da disposição de explicá-los por meio de uma espécie de princípio que os habita, diferente da sua aparência, como os fatos e coisas se animavam duma luz nova para os antigos quando eles os consideravam encarnações de um deus ou uma entidade. Nestas crônicas, a flor é um ente; o lixo, um mau espírito; os impostos, um ritual labiríntico de propiciação; a identidade, uma alma exterior; a água do banho, duende inabordável e cioso. As pessoas são habitadas por um gênio individual, que lhes dá realidade genérica, e podemos ver amazonenses, encontradas no ônibus, que se tornam devoradoras da substância do mundo; amigos mortos submetidos a uma apoteose que os transforma em paradigmas. As aeromoças se tornam aeromusas, e ao alcançarem a categoria de aeromitos desvendam a natureza do trabalho transfigurador do poeta-cronista. Posto na grande cidade, o patético e amargo cantor de Itabira se desdobra por sua vez numa outra alma, é habitado por um outro daimon, que forja um mundo leve e insinuante de caricatura lírica, infundindo fantasmagoria nas juntas perras da Metrópole e amaciando, para nós, a sua cegueira de Olímpio racionalizado. Fala, Amendoeira, pequena mitologia portátil, se descobre então como um convite a ver com poesia.
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