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Segunda-feira, 19 junho de 2006   edições anteriores
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  Preparem-se para futuras turbulências na China

Nicholas D.Kristof*

Com o presidente George W. Bush encurralado, a pessoa mais importante do mundo neste momento pode ser o presidente Hu Jintao, na medida em que preside mais de 1,3 bilhão de pessoas e a ascensão da China. Mas apesar do sucesso da China, Hu parece cada vez mais um perdedor.

Ele desapontou muitos intelectuais chineses e figurões do PC com sua abordagem brejneviana da reforma política. O ex-presidente Jiang Zemin e o ex-primeiro-ministro Zhu Rongji estariam entre os dirigentes descontentes com o governo de Hu, segundo pessoas próximas do processo político chinês. Hu tem uma mente brilhante e é pragmático em economia e diplomacia, manejando bem esses dois campos. Mas na política ele tem sido um retrocesso aos ideólogos do passado (como seu próprio chefe, Song Ping), e tentou puxar a China para trás reprimindo a mídia, a lei, a religião e a internet.

A China mantém 32 jornalistas presos, mais do que qualquer outro país. Uma repressão religiosa levou cristãos clandestinos à prisão, e, algumas vezes, à tortura, particularmente em áreas rurais. E a China tem sido mais rigorosa do que quase todos os outros países na tentativa de neutralizar a internet filtrando palavras obscenas como "direitos humanos". E, sim, é pessoal.

Passei a última sexta-feira do lado de fora do 2º Tribunal Popular Intermediário de Pequim, quando o colega do New York Times, Zhao Yan, estava enfrentando um julgamento secreto farsesco por ordens de Hu. Zhao, um pesquisador no escritório de Pequim do jornal, está preso e virtualmente incomunicável há 22 meses, sob risco de passar uma década ou mais na prisão. Consegui entrar no tribunal por engano - passei de carro pelo portão com dois colegas, e ninguém me barrou quando entrei no recinto. O edifício é suntuoso com mais salas magníficas do que os tribunais dos Estados Unidos. Mas o tribunal estava quase vazio, e, por fim, descobrimos o porquê: as pessoas não têm acesso ao Tribunal do Povo.

Um grupo de agentes policiais à paisana indignados se amontoou ao nosso redor e nos conduziu para fora. O tribunal é um símbolo perfeito da visão de Hu sobre a China: um edifício magnífico com instalações suntuosas, mas vazio em todos os sentidos. É todo infra-estrutura, sem software. É como se Hu achasse que construir um sistema judicial moderno é ter prédios altos e cadeiras estofadas em vez de lei e justiça.

O julgamento foi conduzido em segredo, e não tivemos nem um vislumbre de Zhao. Foi concluído em um dia sem que uma única testemunha depusesse. O veredicto será anunciado em breve e a conclusão antecipada é que muito possivelmente Zhao será enviado à prisão para cumprir uma longa pena. Esse caso surgiu originalmente depois que Hu se irritou com um "furo" jornalístico do chefe do escritório de Pequim do Times, Joseph Kahn, e ordenou que o responsável pelo vazamento fosse punido. As autoridades não conseguiram encontrar uma fonte real e prenderam Zhao porque não gostavam de suas reportagens sobre a agitação rural.

Ainda acredito na China, em parte porque Hu e seus assessores manejaram muito bem a economia. Hu também agiu certo cancelando o imposto agrícola e tomando outras medidas para tentar enfrentar as desestabilizadoras diferenças de rendas na China (1% da população controla agora 60% da riqueza, enquanto nos EUA 5% controlam 60% da riqueza).

Ultimamente, contudo, os esforços de Hu para criar estabilidade com repressão simplesmente ameaçam contribuir para a instabilidade. A maioria dos chineses não quer levantes, mas está cansada de corrupção e mentiras, de ser barrada de Google e Wikipedia, de ter de perder tempo estudando disparates políticos como a campanha "Oito Veneráveis e Oito Vergonhas" de Hu. Os gaiatos a chamam de "Hu shuo ba dao", um trocadilho inteligente que se traduz como "completa bobagem."

A verdade é que a repressão de Hu tem sido curiosamente ineficiente, mais aborrecendo do que assustando as pessoas. Muitos figurões do PC receiam que as repressões somente irritarão e alienarão o público. É por isso que alguns têm falado em permitir que as pessoas se acalmem com uma maior liberdade de imprensa e mais eleições. Uma pesquisa numa província revelou que 85% dos próprios dirigentes queriam acelerar a reforma política.

Mas Hu parece paralisado, já se qualificando como o líder chinês mais fraco desde Hua Guofeng nos anos 1970. O resultado? Preparem-se para futuras turbulências na China.

*Nicholas D. Kristof é colunista do 'The New York Times'

   


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