Francis Fukuyama, cientista político e filósofoEntrevistaA polêmica marca a carreira do filósofo americano Francis Fukuyama. Após a derrocada da União Soviética e dos regimes comunistas do Leste Europeu, ele chegou a proclamar o fim da história. Agora, em seu novo livro, ele não pouca de críticas a doutrina neoconservadora - da qual foi um dos principais fundadores. Em 1997 - ao lado de nomes de destacados membros da administração de George W. Bush, como Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz -, Fukuyama assinou a declaração de princípios do Projeto para o Novo Século Americano, documento considerado como a pedra fundamental do neoconservadorismo.
Seu novo livro, 'America at the Crossroads: Democracy, Power and the Neoconservative Legacy' (A América na Encruzilhada: Democracia, Poder e o Legado Neoconservador) repudia as opiniões políticas que o sr. manteve durante toda sua carreira acadêmica. O que aconteceu?
Aconteceu o Iraque. O processo de me distanciar do neoconservadorismo começou há quatro anos. Concluí que a guerra não era uma boa idéia em 2002 quando estávamos nos aproximando da invasão do Iraque.
Por quê? Afinal de contas, um dos pilares do neoconservadorismo é a profunda crença na democracia e na disseminação da democracia.
Em parte eu estava em dúvida se os EUA poderiam manejar a transição para um governo democrático no Iraque, mas o maior problema que tive foi que faltava conhecimento sobre os EUA às pessoas que estavam pressionando em favor da intervenção. Quando se vê em retrospectiva as intervenções americanas no século 20, particularmente na América Latina, o problema comum é a incapacidade de manter uma ocupação. Antes da guerra no Iraque, estava claro que, se quiséssemos fazer a coisa, precisávamos nos comprometer por de cinco a dez anos. Foi evidente desde o princípio que o governo de George W. Bush não estava preparando o povo americano para esse tipo de missão. Na verdade, foi óbvio que o pessoal de Bush estava tentando ir para o Iraque com pouca despesa. Eles acharam que poderiam entrar e sair em menos de um ano.
De onde veio essa crença? Da ingenuidade, arrogância ou apenas pura ignorância?
Muitos dos neoconservadores extraíram as lições erradas do final da guerra fria e do colapso do comunismo. Eles generalizaram a partir desse evento que todos os regimes totalitários eram basicamente ocos por dentro e se você lhes desse um empurrãozinho de fora, ruiriam. Antes da queda do Muro de Berlim, a maioria das pessoas pensava que o comunismo perduraria por um longo tempo. E ele desapareceu em sete ou oito meses, em 1989. Os neoconservadores, então, fizeram uma analogia errada entre a Europa Oriental e o que aconteceria no Oriente Médio.
O governo Bush ofereceu uma série de justificativas para invadir o Iraque. Disseminar a democracia foi uma delas, mas também foram o temor às armas de destruição em massa e o medo do terrorismo. O quanto de neoconservadorismo entrou na decisão final de invadir? A invasão do Iraque não se baseou primordialmente na democratização do país. Os EUA estavam sinceramente preocupados com as armas de destruição em massa. A administração Bush também assegurou que Saddam era um elo terrorista - embora eu ache esse argumento ainda menos sincero do que a crença nas armas de destruição em massa. A constituição política do Oriente Médio foi o terceiro dos três motivos para empreender a guerra.
A lista original de justificativas para a guerra ficou reduzida a uma.
Bush mudou de argumentos porque os outros fundamentos lógicos - as armas de destruição em massa e o terrorismo - desapareceram. Na época da segunda posse de Bush, a justificativa da democracia era a única restante.
E essa justificativa não está convencendo os EUA?
Os dados de pesquisa de opinião indicam que, principalmente entre os eleitores republicanos, o projeto de democracia não tem muita ressonância. Obviamente que se Bush tivesse dito antes da guerra que gastaríamos não sei quantos trilhões de dólares e teríamos milhares de baixas pela causa da democracia no Iraque, teria sido ridicularizado.
Se olharmos para o Iraque de hoje, esse ceticismo parece justificado.
O Iraque se tornou um campo fértil para o terrorismo. O lado positivo da guerra não é muito positivo. Podemos ter um governo no Iraque, mas será relativamente frágil. Haverá um nível contínuo de violência e instabilidade na região. Não vai surgir um modelo de democracia nem vai desencadear uma onda de democratização.
Os resultados das recentes eleições democráticas ou quase democráticas na região não foram promissores. Temos o Hamas na Autoridade Palestina. Mahmud Ahmadinejad no Irã, a expansão da influência da Irmandade Muçulmana no Egito e xiitas pró-Irã mais ou menos dando as ordens no Iraque. A democracia é mesmo boa para a segurança na região?
Essa é uma questão complicada. Concordo com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, quando ela diz que não é possível conter as forças de mudança social apoiando regimes autoritários. Neste momento, infelizmente, muitas das vozes condutoras da mudança social na região são grupos islâmicos. No longo prazo, suas vozes serão ouvidas não importa o que façam. A tarefa é tentar fazer com que eles introduzam uma forma democrática de discurso. Há um perigo real com o Hamas. Mas, por outro lado, você também não consegue construir um paz duradoura com base numa Fatah altamente corrupta.
Noutras palavras, a radicalização que estamos assistindo é o primeiro passo num processo?
É o primeiro passo num processo muito, mas muito longo. Mas não concordo com o governo Bush de que esta é uma fase necessária para ganhar a guerra contra o terrorismo. Se fosse esse o caso, ainda teríamos de combater essa coisa uns 30 anos à frente. Mas é parte de um padrão mais amplo de mudança política que vai acontecer no Oriente Médio e acho que não podemos pará-lo.
Como os EUA estão se saindo nessa batalha pelos corações e mentes?
Mal. A guerra no Iraque foi um grande revés. A teoria original foi que, se você enfraquecesse Saddam Hussein e promovesse a transição para a democracia, haveria um grande efeito positivo. Mas isso não aconteceu e em vez disso o Iraque se tornou um chamado de recrutamento para o outro lado - tem estimulado muita gente a se juntar à resistência e comprometer-se com a jihad (guerra santa).
Durante o primeiro mandato, Bush apresentou a doutrina que permitia que os EUA se envolvessem em ataques preventivos, se necessário. Por que os EUA acharam que o mundo aceitaria isso?
Acreditamos que podíamos fazer isto por causa da nossa idéia de que os motivos dos EUA são melhores do que os de outros povos e merecemos a confiança neste tipo de poder. Os neoconservadores sustentaram em 2000 exatamente esta forma de hegemonia benevolente. A questão apresentada era: "Será que os outros povos e países vão resistir e se ressentir desta afirmação do poderio americano?" A resposta deles foi não. A América, pensaram eles, era mais moral do que os outros países e os outros povos reconheceriam que nossa hegemonia é muito mais benevolente do que a de outros impérios do passado. Isso foi uma coisa na qual eles estavam errados. Os EUA parecem estar desacreditados, pelo menos aos olhos do mundo. É quase como se o governo Bush tivesse se esforçado para incomodar o resto do mundo. O Protocolo de Kyoto foi um bom exemplo. O governo de Bill Clinton assinou o protocolo, mas ele entendeu que o tratado nunca passaria pelo Senado. Ele apenas o deixou parado, em vez de tentar obter sua ratificação. Bush poderia ter feito a mesma coisa, mas se esforçou para se retirar do protocolo e não apresentou uma alternativa. E então a guerra no Iraque desencadeou uma onda de antiamericanismo na Europa. A guerra no Iraque, é claro, causou muito dano em muitas áreas diferentes. Levará pelo menos mais uma geração para que os EUA recuperem a posição que tinham antes em termos de respeito e de ser um modelo. Agora, quando falamos de democracia, as pessoas pensam em Abu Ghraib e Guantánamo.