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Os radicais livres de Sampa
Galeras de esportes como skate, bike e o recém-chegado parkour têm um jeito diferente de ver a metrópole
Fabiano Rampazzo
A cidade é o limite. O que lhe vem à cabeça quando você pensa nas ruas e avenidas, escadarias e praças, esquinas e ladeiras de São Paulo? Inclua aí na sua lista de possíveis respostas esta que é a primeira opção para muita gente: esporte. “Parte da minha boa relação com a cidade se deve ao fato de eu curtir São Paulo como cenário para esportes”, diz o designer Emiliano Javier Miranda. Ele é praticante do downhill, modalidade diferente do skate tradicional, mais veloz, com um shape (formato) mais longo, próprio para grandes descidas.
Emiliano costuma buscar as melhores ladeiras, que nem sempre são as mais íngremes. “Tem cara que desce qualquer ladeira, mas eu prefiro as menos acentuadas, que são mais longas. A sensação dura mais tempo e você observa, sente a cidade.” Em Higienópolis, onde o designer mora, a Avenida Angélica e a Rua da Consolação são opções. “E tem a adrenalina. Você passa entre os carros, desvia de buracos e chega a até 60 quilômetros por hora.”
Não tão rápido, mas com a mesma determinação, outro esporte totalmente urbano vem abrindo espaço. Literalmente. É o parkour. “O esporte consiste em você ir de um ponto ao outro superando todos os obstáculos que encontrar na sua frente, usando apenas as possibilidades oferecidas pelo seu corpo. Isto é parkour”, define Eduardo Bittencourt, de 30 anos, psicanalista e um dos pioneiros no Brasil. Tanto o nome quanto a modalidade vieram da França (parcours significa percurso). David Belle, um ex-bombeiro, é considerado o criador do esporte. “Em 2004, vi um vídeo dele. Achei incrível, eu precisava fazer aquilo. Foi aí que tudo começou”, diz Eduardo.
LUGARES E TURMAS
Mas e aí, por onde anda essa galera do parkour? “Adoramos os espaços do metrô, as Avenidas Paulista e 9 de Julho, o Vale do Anhangabaú.” O psicanalista não está mais sozinho na brincadeira. “Tem outras turmas. Só em São Paulo já somos mais de mil.” Parece pouco? “Só que, dois anos atrás, não tinha 20. Está crescendo, sim”, diz Eduardo. Hoje, o Parque da Mooca é um dos principais pontos de encontro dos praticantes.
Nessa evolução, o parkour “roubou” do skate antigos adeptos como o estudante Gabriel Miranda, de 17 anos. “Continuo no rolê do skate, mas estou levando mais a sério o parkour”, diz. Praticante da modalidade há nove meses, Gabriel diz que o parkour tem “um lance de superação pessoal”. “Me pegou mais do que o skate.”
Mais que o skate? “O quê? Skate é muito louco, mano. A idéia de você surfar na cidade, tá ligado? Não tem igual”, diz o estudante Gustavo Caram, de 17 anos. “Fora que eu uso skate como meio de transporte, né? Aqui em Sampa ainda, cheio de gente, carro, o skate ajuda muito.” Diferente do long usado por Emiliano, o skate de Gustavo é o tradicional, menor, menos veloz, mas que permite mais manobras. “Qualquer lugar que seja, vou nele, surfando.”
Também skatista, Artur De Wolf Gonçalves Filho, estudante de 16 anos, prefere o terminal de ônibus da Lapa como espaço para as manobras. “Lá é tudo de mármore, tem vários degraus e o chão é perfeito”, explica. Ele gosta também da Praça Charles Miller, em frente do Estádio do Pacaembu. “Ali tem umas rampas e os caras (da galera de skatistas) improvisam um corrimão, dá pra se jogar, fazer várias manobras. É bem louco”, diz Arthur, que freqüenta o local com outros membros da tribo da prancha urbana.
Para Luciano Katalah, de 29 anos, vice-presidente da Associação dos Skatistas de São Paulo (Aski), a cidade oferece ótimos lugares para a prática da modalidade. “O skate é um esporte essencialmente street, urbano, tem tudo a ver com São Paulo e seu mar de pavimento e concreto”, afirma.
PEDALADAS
Agora, não dá para falar de esportes urbanos e não mencionar as tantas bikes que giram por aí. Além dos night bikers, ciclistas que saem em grupo para passeios noturnos, o que se vê hoje são vôos solitários de pessoas que buscam interagir com a metrópole pedalando. “Sem dúvida; 80% das vezes em que saio para pedalar é sozinho”, diz Thiago Toledo Lucena, de 26 anos, editor de vídeo.
Thiago explica que, durante os rolês de bicicleta, tem uma visão diferente de São Paulo. “O mesmo cruzamento que me deixou preso no trânsito quando passei de carro, eu cruzo depois, de bike, com outro espírito e sensação”, diz. Ele sai para pedalar pelo menos três vezes por semana, normalmente entre as 11 da noite e a 1 da manhã. “Na madruga é menos perigoso, tem menos carros”, garante. “Vou até uma barraca de fruta de um bairro afastado e volto.”
Thiago é um dos 350 mil ciclistas que pedalam com freqüência pela cidade. O número é da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), que luta por uma maior integração entre a bicicleta e os meios formais de transporte coletivo, como o metrô e os trens. “Não há bicicletários nas estações. Medidas como esta ajudariam não só passageiros, mas a cidade como um todo”, diz Sérgio Bianco, coordenador do Grupo de Bicicletas da ANTP.
Mais informações, podem ser conseguidas nos sites www.sampabikers.com.br, www.aski.cjb.net, www.leparkourbrasil.com.br e www.abpk.com.br
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